Os dedos tamborilam a mesa uma, duas, três vezes. É como se houvesse uma inquietude dentro dele que quem olha sem muita atenção não percebe. Seu Nelson me recebeu em sua casa, numa rua tranquila, como todas as outras, na “perdida” Colônia Santa Izabel. Poucos carros passam por lá, mas quando passam, com suas músicas altas que estremecem a varanda do número 277, ele reclama: “Às vezes eu até sinto falta da colônia ‘fechada’”.

Uma falta de paciência ou um nervosismo em sua postura contrastam com a fala firme e decidida. Os dedos rígidos batem na mesa mais algumas vezes. Poucas vezes vi alguém contar uma história com tantos detalhes, tão consistente. Uma destreza de quem conta um caso há décadas. E conta.

A Colônia Santa Izabel é um bairro dentro de um bairro. Daqueles com cara de cidade pequena de interior: ruas de terra, pracinha com mesas de xadrez, pouco comércio e muitas igrejas. A rua Padre Damião fica logo abaixo do cemitério do bairro.

Foto: Gabriel Peixoto

Um carro verde fica estacionado na garagem laranja do seu Nelson. Antigo, mas bem conservado e limpo. Ele prefere andar. Quase não sai mais da Colônia e faz suas caminhadas todos os dias às 7h quando as ruas ainda estão frescas e vazias. “Eu ia muito pra Betim, no bar do baiano, quando eu era solteiro, agora as coisas estão mudadas”.

Betim fica a 800km de Águas Vermelhas, cidade do Norte de Minas onde Nelson nasceu em 1943, e viveu até os 12 anos. Eram 5 irmãos. Em 1955 todos eles contraíram hanseníase, na época chamada de lepra. Não é preciso perguntar, ele conduz o assunto com uma destreza admirável. Narra sua vida de forma quase ensaiada.

O Brasil tinha, em cada estado, um centro de tratamento para a “lepra”, na década de 1950. A família Flôres recebeu uma denúncia de que estavam doentes e dois meses após, o diagnóstico médico. Nelson e seus irmãos foram levados rapidamente à Colônia. Era uma família pobre. Os olhos, de repente, ficam marejados e as mãos se aquietam ao falar da família. “Me tiraram do colo da minha mãe. Aquilo não era pra tratar a gente, era pra nos esconder da sociedade”.

A adolescência foi tão conturbada quanto a infância, foram idas e vindas à colônia. A cura nunca era certa. Aos 16 os sintomas da hanseníase regrediram e ele voltou pra casa. Quando retornou a sua cidade, descobriu que mais um irmão havia sido diagnosticado hanseniano. Ele voltou, o irmão foi. Neste período a família se desfez dos poucos animais que criava, e com o dinheiro compraram um pequeno terreno, numa área pobre da cidade, onde cultivariam plantações. Um ano e dez meses foi o tempo em que Nelson trabalhou com seus pais na nova função. Quando seus braços começaram a apresentar os sinais da doença, foi obrigado a voltar para a colônia. “Lá não tinha tratamento adequado, mais ficar sem ele era pior”, ele constata.

Na Colônia eram distribuídos os remédios disponíveis. Aqueles que podiam pagar um tratamento na capital se curavam em pouco tempo. Os irmãos foram indo, um a um. A solidão se tornou, mais do que nunca, a companheira de Nelson. “Da minha irmã mais nova eu não tenho um retrato”. Ela foi a primeira a morrer, cinco anos após sua internação.

Era comum lidar com a morte na Colônia. A hanseníase não matava, os internos morriam do descaso, do abandono. Não se sabia quem tinha diabetes, hipertensão ou qualquer outro problema que não fosse a “lepra”. Os doentes cuidavam uns dos outros. Ele conta, ainda com indignação, dos suicídios que presenciou. No dormitório, na enfermaria, no refeitório, no rio. O centro de tratamento chegou a habitar 5 mil doentes nos anos 60. A morte era uma sombra diária.

Comida, uma cama pra dormir e o dito tratamento, era o oferecido aos internos. Por isso, em 1963 Nelson foi para a capital em busca de trabalho. “Eu tinha que aprender uma função”. A essa altura o corpo já exibia as marcar da doença: já não tinha o topo dos dedos de ambas as mãos, e parte do nariz já estava comprometida. Aprendeu a ser pintor, aprendeu também a dirigir.

Vez ou outra ele cita a revolta, com muito pesar na fala e no olhar. As correntes que lhe aprisionaram àquela vida de dor e reclusão deixaram marcas no corpo e na alma. A luta para se desvencilhar do passado doloroso é árdua e ainda o acompanha. A revolta levou Nelson ao problema com o álcool. Mas desse assunto ele fugiu rapidamente.

Foto: Marina Rezende

A parede da varanda de sua casa estampa vários quadros e adesivos. Uma moldura dourada antiga circunda um retrato feito a mão de seus pais. Uma foto de um dos irmãos figura o topo mais alto da parede. Na cena ele equilibra uma bola de futebol grande, aparentemente pesada, nos pés. Por diversas vezes Nelson aponta o retrato e fala com orgulho do irmão. “Esse aí era meu melhor amigo”.

A cada caso que contava, apontava os dedos imóveis para o interior da casa: Isso está no meu livro, você vai ver. Foram 9 anos de produção desse livro, hoje na etapa de revisão. Sua alfabetização foi precária, e escolaridade mínima. “Eu não estudei essas coisas que você estudou, essa gramática. Mas o dom de escrever eu sempre tive”, ressaltou. Na colônia haviam duas escolas, umas para as meninas e outra para os meninos. No topo do morro ficava uma pequena escola para os filhos de funcionários, ou aqueles livres da hanseníase.

A Colônia Santa Izabel — ou ex-colônia, como prefere a maioria dos moradores — faz parte do bairro Citrolândia, um dos locais de maior índice de criminalidade em Betim. Para Nelson o bairro é dividido em dois: aqueles que “restaram” do que foi a colônia, e os outros que vieram para o bairro. “Engraçado que hoje quem mais vem aqui usar nossas clinicas era quem mais tinha preconceito contra a gente: Betim, Igarapé, São Joaquim de Bicas”, diz entre um sorriso duro.

De seu tempo interno no centro de tratamento, Nelson guarda poucas boas lembranças. Os internos eram uma família, só tinham uns aos outros. O bem mais precioso, entretanto, é a esposa. Zenaide e Nelson se conheceram no período que estavam internados. Se casaram há 50 anos e adotaram um filho. Thiago, o “Thiagão”, como ele o chama, hoje com 28 anos, é um embaixador militante no extermínio do preconceito contra os hansenianos.

Os pais se foram cedo. A mãe em 1970 e o pai em 1980. Seis anos após a morte do pai, os portões da colônia foram abertos. Desde então Nelson reside ali. Nunca houve outra casa para ele. A casa em que vive com a mulher é uma típica casa dos anos 70. Azulejos antigos, tons escuros e quentes nas paredes e diversos estilos de decoração misturados. Enquanto fala, Nelson acompanha Zenaide com os olhos. “Ô, preta, fecha a cortina aqui, senão o sol mata a gente”.

O livro que ele escreve agora é o segundo de sua autoria. No meio da conversa, após muito citar o manuscrito seu Nelson resolve buscar um exemplar de seu primeiro. “O menino e o rio” é o nome estampado na capa branca de um livro fino. O encontro do verde e marrom formam um rosto feminino e um rio de águas claras. Como seus dedos são lesados pela hanseníase, ele tem dificuldade em abrir a primeira página. São algumas tentativas até conseguir. As unhas são grandes para fazer as vezes da última falange dos dedos. Como convive com os traumas da doença há anos, Nelson tem suas formas de manusear as coisas.

É a história de um menino amaldiçoado por uma bruxa. “A bruxa é a hanseníase”, ele revela. O rio é o Paraopeba, que circunda a colônia. Desde menino, Nelson tem uma relação próxima com o rio. Já pescou, nadou, e viu vida no rio. Viu também a sua morte rápida. Viu ele transbordar e inundar sua casa três vezes. 1997, 2008 e 2011.

Era possível sentir, inclusive pela postura, o orgulho por aquele livro. Fez questão de passar as 39 páginas e explicar-me uma a uma. Ao final pegou uma caneta, e com as mãos rígidas, porém habilidosas, escreveu na contracapa: Conserve com carinho essa simples lembrança, que é também uma mensagem de amor, às águas e montanhas de Minas. Nelson Florês.