O gol mais bonito de Canoas

Canoas, um sábado de manhã. Quadra do Sesi.
Eu tinha no máximo uns 16 anos.
Era um sábado de manhã, como eu disse, e a gente marcava esse horário porque a quadra custava mais barato. Vivia-se de mesada, ora bolas.
A partida era de futsal. Eu estava na ponta esquerda um pouco antes do meio da quadra ou um pouco depois, agora não lembro. Usávamos um fardamento comprado na Pess Calçados, que vendia tudo mais barato e ficava perto da Chocoart, loja da mãe do nosso amigo Carlinhos. Era uma sociedade e um jogo organizados.
Então, como eu disse, eu estava na ponta esquerda.
O Dimitri, que vinha jogando muito bem ultimamente (talvez porque começara a se exercitar com um saco de pancadas em casa e porque tinha feito uma quadra na própria garagem, com marcação e tudo, para treinar), pois o Dimitri deu um ganchinho perfeito na bola lá do outro canto do parquet. A pelota tomou uma ponte aérea e viajou até onde eu estava. Notei que se aproximava de lado, rodando sob seu próprio eixo (como consegui notar isso?).
Ela vinha rápida mas apetecível. Tive a ideia.
No que a bola começou a cair, desferi nela um raquetaço com a perna esquerda (adoro essa palavra para um belo chute). Um bate-pronto furioso, impressionante. Eu me direcionei naquele microssegundo a cometer uma grande ação, um feito, como se decidisse conquistar um prêmio da FIFA um um Nobel de alguma coisa, o que acabei não conseguindo ao menos até agora.
Mas aquele golaço, naquele dia, eu fiz.
A bola descendo encontrou a minha pata esquerdo subindo e… Bum! O contato teve a força da fissão de um átomo. A bola saiu em velocidade de vida própria. Passou ao lado de uma cabeça (que não estaria mais entre nós caso se chocasse com a bola) e antes de entrar no gol como um meteorito colidiu com a trave direita da goleira. Entrou ainda com mais fúria no gol, estufando a rede.
E que estufada foi aquela.
Um detalhe: quando uma bola entra numa goleira com força, o mais legal é a rede estufando. Eu sou da época do maracanã com a rede véu de noiva, a estufada era sempre com classe. No Beira-Rio a rede era muito longa e muitas vezes a bola sequer chegava nas cordas. Isso tirava a plasticidade de muitos gols. O Inter daquele tempo era um problema complicado.
Mas eu falava do meu gol. Aquele foi o gol mais bonito de Canoas. Muitos outros foram marcados mas aquele foi o meu, e para mim foi o mais golaço dos golaços feitos por aí. Sou como São Tomé, e nunca vi depois disso nada igual nem na cancha de areia do SESI, que por ser maior convidava a chutes ainda mais plásticos (e fiz um belo gol de falta ali, sem querer, mas isso é outra história).
Por isso, acho que aquele foi o gol mais bonito que o meu simpático município já viu. Na saída do jogo todos me cumprimentavam (juro!) e se não me engano alguém quis me pagar um pastel na lanchonete contígua. Não lembro se aceitei, mas acho que sim. Que menino de 16 anos nega um pastel de carne?
Que saudade daquela Canoas e daquele gol.
