O Resgate do Soldado Ryan, vinte anos depois

Existe um alívio no mundo: a presença do idiota.
Um dia, alguém perguntou a Steven Spielberg quando ele faria filmes para adultos.
Quando eu me tornar um, respondeu.
Naquele dia, acossado pela idiotice do idiota, Spielberg foi pra casa. Jantou alguma janta corriqueira de família americana e disse a si mesmo: vou fazer filmes de adultos.
E fez A Lista de Schindler.
Mas alguém disse alto lá, essa temática do holocausto é manjadíssima. Não me venha o senhor com filme de judeu em campo de concentração. Sempre ele, o idiota. Uma figura fundamental.
Aí, Spielberg fez o seguinte: ligou o foda-se.
E fez O Resgate do Soldado Ryan.
Que obra é o Resgate do Soldado Ryan? É um filme sobre as obrigações do homem. E sobre a dignidade de seres humanos fazendo o necessário em meio ao caos.
Inicia o filme e lá vamos nós. Comecemos pelo espetáculo que se descortina, a epistolar primeira meia hora do desembarque na Normandia. A quintessência, o padrão ouro da imagem e do som fulminando o espectador. Aberta a comporta da barcaça as balas deliram de fúria pelo ar. Vem a destruição dos corpos dos soldados com aquele ruído opaco e terrível.
Aquela loucura, o que é? É Spielberg dizendo isso é a guerra. Todas as suas impressões românticas sobre a guerra o senhor por favor deixe na porta do cinema ou as enfie naquele lugar. A guerra é isso aqui: ei-la. Pessoas morrendo sem cabeça, sem braços, o estômago de fora. Os intestinos na areia, vinte metros na frente alguém diz pegue aquele tubo bangalore. As pessoas choram. Quem sabe de tomar tiro, escutei falar, nāo quis mais ver. A primeira meia hora de Resgate é a melhor comunicação cinematográfica que conheço, nunca vi um cineasta conseguir dizer coisas quase intraduzíveis com tanto talento. O cinemeiro cult da década de 20 rirá e dirá que eu nāo sei o que estou dizendo, mas ele está errado e nós (eu e você) estamos certos, ponto.
Passa a primeira hora. O capitão Müller contempla a tomada da praia de Omaha e o vivente já está paralisado na poltrona. Mas temos mais duas horas de filme, vamos em frente por favor.
Buscando o quinto irmão de uma família de cinco filhos que todos morreram menos o caçula, o pelotão do capitão Müller (Tom Hanks, gênio da raça) vai entrando França ocupada adentro atrás do senhor Ryan. Não são poucas as dificuldades. O atirador de elite alemão mata um soldado amigo. Cai uma parede de casa e dentro estão mais alemães, os caras são fuzilados sem dó e um deles, nunca me esqueço, fica escorado na mesa porque o corpo já morto nāo encontrou força suficiente pra cair.
Chega o pelotão americano em uma metralhadora alemã. Começa o combate, morre o médico do pelotão (e parte num desespero juvenil de quem se dá conta que a vida a recém começara e já vai acabar). Todos brigam e para amenizar o clima o capitão entrega quem ele era back home in Louisiana, um professor de inglês. Só sei que a cada homem que mato mais distante de casa me sinto. É a guerra amassando a dignidade ou, melhor dizendo, aquele sistema de crenças pacato e necessário que todos têm dentro de si.
Vem a chuva, vem a lama, vem a desesperança dos soldados que nāo aguentam mais aquela vida. Em face dos maiores perigos, o pelotão em algum campo de batalha chega em Ryan, que nāo quer voltar sem defender o lugar. O Capitão Müller sabe-se lá com que dignidade interna concorda e diz ok, vamos lá ao encontro da morte certa mais uma vez.
Dispara de novo a loucura da guerra. A batalha, as rajadas de tiros, os terríveis alemães falando alemão (deve dar medo o alemão sendo escutado numa guerra), todo o caos e a loucura uma última vez. Ferido de morte, o capitão Müller olha para Ryan e diz o seguinte: earn this. E morre. Ele só pede que o rapaz, na vida que viria, fosse uma boa pessoa. E a cena na minha descrição pode parecer piegas mas é maravilhosa, é desbundante. Seja uma pessoa decente, rapaz. Aquele sistema de crenças pacato e necessário que todos têm dentro de si.
O Resgate do Soldado Ryan termina, baixa a cena dos créditos e você, sem exageros, nāo é mais a mesma pessoa.
O mundo é um lugar cheio de perigos. Ele pode ser inóspito. Ele pode ser deserto. Ele pode ser mortal.
Ele pode ser uma praia na Normandia com cinquenta metralhadoras esperando por você. O barco de metal anunciando, com o barulho obtuso do motor, que você vai morrer.
Lembro que vi o Resgate em videocassete, meu pai me trouxe o filme locado (a saudade da locadora Chaparral) e me disse ó, dá uma olhada nesse filme. Era ele se comunicando comigo. Ó, isso aqui é ser gente nesse mundo.
Era exatamente isso, e é até hoje, vinte anos depois, meu filme predileto.
