Fotógrafo Sérgio Silva: exemplo de vocação profissional, mas também de sacrifícios

Artigo de opinião de Helena B Lorga e João Pedro Abbade

O que você acharia se estivesse trabalhando, acontecesse um acidente e ficasse deficiente? E se você pedisse indenização e seu pedido fosse negado, tendo como argumento de que a culpa foi sua?

Pois é, isso de fato aconteceu com o fotógrafo independente Sérgio Silva, que perdeu a visão do olho esquerdo ao ser atingido por uma bala de borracha numa manifestação contra o aumento da tarifa do ônibus, no centro de São Paulo, no dia 13 de junho de 2013. Sérgio pediu uma indenização ao Estado referente a danos moral, estético e material. Ele teve seu pedido recusado em agosto deste ano, pois a Justiça o considera culpado. Na sentença, o juiz Olavo Zampol Júnior afirma que o erro foi exclusivamente do profissional, que se colocou na linha de confronto entre policiais e manifestantes e não tomou o devido cuidado.

Esse foi o seu relato na palestra da Semana de Jornalismo da PUC-SP, ocorrida no dia 29 de setembro deste ano (quinta-feira), na mesa “Fotojornalismo e Direitos Humanos: relatos da humanidade? ”. Com a plateia lotada e muitas perguntas, os convidados relataram suas experiências na área de fotografia, mas o único que passou por um grave acidente foi Sérgio.

Parece ser difícil acreditar que um jornalista, que muitos pensam ser uma pessoa blindada pela imprensa, possa passar por uma situação dessa. No mesmo ano do manifesto, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) fez um estudo sobre a violência ocorrida contra jornalistas, registrando, em apenas um mês, 190 casos de agressão e prisões contra os profissionais, causados principalmente por policiais. Ao todo, eles envolveram 178 jornalistas, sendo São Paulo e Porto Alegre as duas cidades que mais registraram esse tipo de problema.

No caso de Sérgio, ele foi cobrir a manifestação a serviço de uma agência de notícias, e após o ocorrido, perdeu vários trabalhos e passou cinco meses sem renda, lembrando que é casado e pai de duas filhas. Contou que teve muita dificuldade para se adaptar com apenas um olho, como quando derrubou o café na mesa no dia seguinte, pois ficou com o campo de visão reduzido. Claro que com o tempo foi reaprendendo a enxergar, mas demorou um pouco. E não foi só ele que sofreu com os policiais: nessa mesma manifestação, a jornalista da Folha de S. Paulo, Giuliana Valllone, também foi atingida com uma bala de borracha, porém teve mais sorte, porque voltou a enxergar.

Por isso que me pergunto: isso é culpa dos profissionais? Culpa por fazer um bom trabalho, procurar o melhor ângulo para a fotografia? Veja bem que o Sérgio já perdeu a visão, será que a indenização afetaria tanto o bolso do Estado? A ação da PM naquela noite foi abrupta, desproporcional ao ocorrido, o que mostrou um grande despreparo e um verdadeiro abuso de força. Mas, fazer o quê, para o juiz Olavo Zampol Júnior a culpa continua sendo do trabalhador. Isso me parece bem justo, só que no sentido figurado.

Vendo todas essas histórias, acredito que para entrar e permanecer nessa profissão de risco não se deve ter apenas preparo técnico, mas também vocação e gosto pelo que faz. Não é qualquer um que continua nessa jornada. Sérgio disse que voltou a fotografar, pois é a profissão na qual sente prazer e vontade em realizar, que escolheu para si e é o que sabe fazer de melhor. Que bom saber disso, para mim é um grande exemplo de profissional. Só espero que tenha mais sorte daqui para frente.

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