O melhor da Semana do Jornalismo

Ariela Pellegrine

Raisa Santos

O debate Moda, Comportamento e Padrões Excludentes foi o mais intenso da programação. Os alunos perguntaram a opinião das convidadas a respeito de temas como preconceito e feminismo atual. Foram expostos casos de preconceito, dentro da PUC, como de uma aluna no coletivo Três Rosas recentemente e de uma das convidadas no momento da matrícula para cursar Moda há alguns anos.

As convidadas foram Nanda Cury (Blog das Cabeludas e Marcha do Orgulho Crespo), Maria Rita Casagrande (Blogueiras Negras) e Stephanie Ribeiro (aluna da PUC Campinas e militante feminista negra).

A exposição dos assuntos girou em torno do papel da mulher negra na sociedade e como ela é vista na moda. Maria Rita abriu a conversa contando sua experiência e de sua família em situações de preconceito. Expôs de maneira bastante sensível a forma como o colégio particular em que seu filho estuda insistiu em registrá-lo como mulato e não como negro, contrariando a solicitação da mãe. Formada em Moda na Faculdade Santa Marcelina, sofreu preconceito desde o momento da matrícula, no qual ouviu comentários rudes de um funcionário dizendo que aquele “não era lugar para pobre” e ela “não deveria se matricular se não tivesse dinheiro para pagar até o fim”. Pode-se perceber a surpresa na reação dos alunos ao ouvirem esse relato. Provavelmente a mesma reação que Maria Rita teve ao fazer a matrícula, apesar de haver poucos negros na plateia. Sentimos um certo alívio quando o professor Marcos Cripa se desculpou em nome dos alunos e professores. Com 36 anos e duas graduações, Maria Rita ainda tem dificuldades em ingressar no mercado profissional. No contexto em que vivemos, pouco adianta ter os diplomas se existe um modelo imposto pela sociedade no qual ela não se encaixa. Ainda vivemos em uma época em que os padrões de beleza podem importar mais que a formação acadêmica.

Nanda abordou a história de seu Blog das Cabeludas e o que a motivou a criá-lo. Relatou ter problemas desde pequena com seus cabelos, alisados desde os 6 anos de idade, e de se sentir estranha já que é a única em sua casa com cabelos crespos. Questionou a falta de interesse do mercado em produtos para cabelos crespos e cacheados, que são predominantes no Brasil. O mais intrigante na sua fala, era como as empresas de beleza insistem no termo “cabelos cacheados”, pouco citam “cabelos crespos” em suas marcas ou produtos e vendem um conceito inalcançável de “cachos perfeitos”.

Chegou a passar pela experiência de quase ficar careca ao tentar alisar os cachos e após muitos anos desistiu de fazer tratamentos, aderindo ao cabelo natural. Assim, começou a incentivar outras mulheres a fazer o mesmo através do seu blog e da Marcha do Orgulho Crespo. A trajetória até manter os cabelos naturais foi intensa. Para ela, foi mais fácil assumir um relacionamento com outra mulher do que assumir seus cabelos crespos. Se assumir homossexualidade ainda é um grande tabu, é possível imaginar como a transição para cabelos naturais foi difícil para Nanda. Também mencionou a banda musical em que iniciou como cantora e incomodou um pouco a Maria Rita ao dizer que as pessoas começaram a perguntar se ela era negra quando viam fotos de seu cabelo natural.

A terceira convidada, Stephanie, abordou o papel da mulher negra atualmente. Trouxe expressões de racismo mascaradas do cotidiano, como o fato de elas serem taxadas de agressivas e muitas vezes não serem consideradas mulheres. Ela mesma sofreu preconceito em uma discussão na internet em que uma colega disse que ela era muito agressiva, mesmo sem nenhum indício que o comprovasse no texto enviado. Apesar de se considerar uma negra padrão da sociedade — alta, magra e jovem — sofre com o racismo mesmo dentro do seu condomínio. A maneira que ela fecha o portão incomoda os vizinhos. Era visível que um depoimento como o de Stephanie nunca havia passado pela cabeça de muitos dos alunos presentes. Algo tão pessoal, mínimo e desprezível, pudesse incomodar outra pessoa. Não era o fato dela fechar o portão de forma “errada”, mas sim uma negra fechando o portão da casa dela.

Uma aluna negra da manhã informou ter passado por uma situação de racismo em que colegas postaram no Facebook indiretas para ela. Os posts diziam que não adiantava ser negra e pagar a mensalidade da faculdade. O fato incomodou Maria Rita, que respondeu que situações de racismo ferem muito as pessoas. Quem as comete esquece com facilidade, mas quem as sofre fica marcado para sempre, o que é ignorado pela sociedade. Esses pequenos “erros” que cometemos, atingem e ferem pessoas de forma profunda. “Os seus erros nos matam diariamente”. Algumas integrantes do coletivo feminista que a aluna fazia parte pediram licença para pedir desculpas em público em nome do grupo e Maria Rita, mais uma vez, contestou o posicionamento. Porque se de fato, era um coletivo, as outras garotas deveriam ter apoiado e ajudado a colega que sofreu os insultos. Quem comete racismo e sai impune, só incentiva os outros a fazerem o mesmo. “Não é preciso ser negro para lutar contra o racismo”.

“Tem dias que não tenho vontade nenhuma de viver”. A luta diária contra o racismo é muito pesada e ela pensa muito em desistir. É comovente ver esse tipo de relato. Estamos no século XXI ainda com problemas não resolvidos do início do século passado. Respondendo a uma pergunta sobre a definição de quem é negro ou não em um país multicultural como o Brasil, ela informou que é a sociedade que define quem o é. Depende da forma como ela classifica você.

Cada uma das convidadas introduziu sua apresentação com uma história de preconceito que começava quando elas tinham por volta de 3 anos de idade. É difícil lembrar de algo que aconteceu quando você é tão pequeno, mas essas mulheres lembram de tudo. E têm muitos motivos para lembrarem. De todas as convidadas, o discurso de Maria Rita foi o mais forte, certamente pela sua experiência de vida e por ser a mais velha das três na bancada. Através de cada relato só é possível ter uma pequena ideia de como elas vêm se sentindo a vida inteira.