Precisamos discutir esses padrões:

A mulher idealizada na mídia e a mulher da vida real

Por Ariane Freire de Sá e Isabella Lopes Leal

A discussão sobre “Moda, Comportamento e Padrões Excludentes” é um tema recorrente para muitas pautas jornalísticas e feministas pelo mundo. Em diferentes circunstâncias, as mulheres passam a se incomodar com o padrão mercantilizado e fetichista dentro da mídia, lutando para dizer ao mundo que não precisa ser dessa maneira e mostrando que outras identidades não só podem, como também devem ser valorizadas socialmente.

Considerando a necessidade de debater questões como essas, o terceiro dia da Semana de Jornalismo da PUC-SP trouxe para os alunos as convidadas Maria Rita Casagrande, fundadora do website “Blogueiras Negras”; Nanda Cury, fundadora do “Blog das Cabeludas” e idealizadora da Marcha do Orgulho Crespo; e a militante feminista Stephanie Ribeiro, estudante de arquitetura da PUC Campinas. A mesa estava completa. E o auditório também.

Inicialmente, foi conversado sobre as dificuldades de estabelecer uma identidade fora do perfil idealizado. As necessidades, muitas vezes ignoradas pelo mercado com produtos que não são feitos para todos os tipos de pele, cabelo ou corpo, trazem para as vitrines uma estética incompatível com a realidade da grande população.

Conforme apresentado por Nanda Cury, durante muitos anos em nosso país a ideia de “cabelo bom” esteve associada ao cabelo liso, jamais ao cabelo crespo. “Muitas mulheres enfrentaram conflitos pessoais e sociais por causa disso, fazendo alisamentos e químicas capilares desde a infância até a fase adulta”, conta a blogueira ao relatar sua experiência pessoal e de muitas outras mulheres com quem já conversou.

Os procedimentos que além de custarem financeiramente caros, oferecem inúmeros riscos para saúde e alimentam uma exploração de mercado que coloca o Brasil como primeiro país do mundo em alisamentos químicos.

Em passos vagarosos, as empresas começam a entender que existe uma demanda que vai além destes estereótipos, trazendo nos últimos anos, alguns produtos que diversificam e valorizam um pouco as novas (e sempre existentes) identidades femininas.

Mesmo já sendo um grande avanço, infelizmente acontece outro equívoco grave: o mercado procura um novo padrão para a mulher perfeita, só que dessa vez com cabelo cacheado ou crespo. Fato que também acontece quando tentam representar mulheres negras na televisão, estabelecendo um perfil de altura, tamanho e traços aceitáveis para que ela seja entendida como uma “negra bonita”, ressalta Maria Rita Casagrande durante o debate. Além dessa expressão racista que ilustra o preconceito social, estamos falando novamente de uma idealização utópica que está longe de ser a voz da maioria.

O problema não é que essas mulheres tenham um lugar na grande mídia, porque inclusive isso é muito significativo para um público que há pouco tempo, passava despercebido em todos os aspectos. Mas é importante enfatizar que não podemos criar novos rótulos para quem já está cansado de enfrentar diariamente o machismo, a rejeição, o racismo e outras imposições sociais tão enraizadas por nossa cultura.

Ao final dessa palestra, cada um levou consigo um pouco da dor de alguém agredido pelo preconceito; o questionamento sobre o século que nós realmente estamos e a visão de uma sociedade que não queremos entregar às nossas crianças.