Podcasts Portugal
Feb 6 · 5 min read

No início de Fevereiro de 2019 um tremor abalou o mundo dos podcasts quando o Spotify adquiriu dois importantes actores na criação e distribuição de podcasts.

Sabia-se há uns dias que o gigante do áudio estaria interessado na Gimlet Media, uma rede de podcasts extremamente bem sucedida, conhecida por produções como Reply All, um programa de investigação sobre a internet, ou Homecoming, uma das primeiras grandes experiências de ficção em podcasts, com nomes de peso como Oscar Isaac e Amy Sedaris no elenco, e que acabou por dar origem a uma série de televisão com Julia Roberts ao centro. O próprio nascimento da rede enquanto empresa ficou na história na forma do seu próprio (meta) podcast, Startup, que também viria a inspirar uma série de televisão na ABC.

Mas foi com surpresa que se soube da notícia da aquisição da Anchor, uma aplicação de produção de podcasts através do telemóvel, que permite gravar, editar, hospedar, distribuir e ouvir podcasts de modo gratuito e surpreendentemente fácil, com a permanente introdução de funções como a gravação de conversas por telefone ou sistemas de monetização do conteúdo. A Anchor diz que está por trás de 40% dos novos podcasts e tem um potencial surpreendente de democratização do meio, embora não se tenha ainda conseguido dissociar da névoa que envolve as suas condições de utilização, que parecem indicar que a aplicação reserva direitos do material produzido — o que a empresa prontamente refuta.

O Spotify não está a brincar e não esconde, portanto, a sua aposta em podcasts. Estes foram negócios de centenas de milhões de dólares, e a empresa já tornou pública a intenção de gastar até mais 500 milhões em aquisições de podcasts em 2019. E só faz sentido, sendo a principal plataforma de música no mundo, que se queira assumir como “a netflix dos podcasts”, como já está a ser apelidado.

Mas isto quer dizer o quê exactamente? Podcasts são um meio maioritariamente gratuito, até agora geralmente monetizados de 4 maneiras: publicidade, merchandising, eventos pagos ou crowdfunding através de plataformas como o Patreon. Ou seja, o produto principal é muito raramente pago ou escondido atrás de uma paywall. O próprio Spotify acolhe podcasts que podem ser ouvidos livremente, porque aquele conteúdo está disponível gratuitamente no resto da internet. Ou estava.

Com conteúdo exclusivo (que começou a adquirir já em 2017) o Spotify terá agora total controlo sobre os podcasts que assina, o que, associado ao potencial de uma fábrica de episódios como a Anchor, o poderá tornar imparável. Neste momento o impacto do Spotify no número de downloads/plays de um podcast é ainda pouco substancial, mas a criação de um império mudará essa realidade mais cedo do que tarde, e pode até trazer grandes benefícios para os criadores de podcasts, que estão listados na plataforma e poderão atingir novos públicos que já utilizem o Spotify no dia-a-dia para ouvir música.

Mas grandes questões se colocam sobre o futuro dos podcasts, inspiradas por esta notícia mas inevitáveis num universo tão pouco controlado mas com tanto potencial. É previsível que conteúdo exclusivo surja cada vez mais e que isso mude o panorama do meio. Não será preciso muito para atrair criadores independentes e sedentos de sustentabilidade para o interior da muralha exclusiva e dourada. Outros gigantes seguirão. O formato praticamente nasceu com a Apple, mas duvido que se mantenham fiéis ao espírito livre do meio, quando a Apple Music pode ser usada exactamente da mesma maneira. E a Google também lançou recentemente a sua aplicação de podcasts, que pode aliar à Google Play Music. Espero estar errado.

Restamos nós, os pequeninos, que por orgulho, convicção ou falta de acesso, continuaremos a disponibilizar o conteúdo gratuitamente e por amor à camisola. Estarão os gigantes dispostos a acolher-nos quando damos o nosso amor de graça aos outros? E estaremos nós dispostos a partilhar uma casa com alguém que oferece o mesmo que nós mas é pago por isso?

Mesmo para lá destas questões, mas perante as quais tudo ganha novos contornos, é incontornável reflectir sobre o principal problema actual dos podcasts, fruto do seu sucesso e da facilidade de acesso e produção sem grande investimento: começa a haver mais podcasts do que é possível gerir.

No final de 2018 propus uma selecção de episódios de podcasts portugueses naquele ano mas mencionei também os dados impressionantes do consumo de podcasts:

Em Março de 2018 a plataforma de podcasts da Apple, que lidera o mercado e essencialmente dita as regras, passou a marca dos 50 mil milhões de downloads individuais, num universo de mais de 500 mil podcasts registados.

Pode não ser ainda uma realidade em Portugal, mas parece que o país acordou recentemente para o meio e mesmo no contexto nacional já se começa a colocar a questão: O que fazer com tanto podcast e tão pouco tempo para ouvir ou sequer descobrir?

Já hoje a melhor ferramenta de divulgação de podcasts é o passa-palavra, e confiamos mais na opinião dos amigos do que em qualquer anúncio, raking ou algoritmo. Prevejo que esse modelo seja potenciado ao extremo, como já é feito com a música, precisamente pelo Spotify.

É uma previsão que já faço há algum tempo, mas ganha novo fôlego com as notícias recentes.

Pensem nisso. Já é possível criar listas de música e de podcasts, mas e se o futuro fechasse um círculo perfeito e cada um de nós tivesse um canal áudio pessoal, aliando conteúdo nosso a podcasts de outras pessoas — que o permitem ao assinar com a plataforma — talvez mesmo com programação planeada (ou automática), com interlúdios musicais (lá está, Spotify) e pausas para publicidade? O Spotify vai inventar a rádio.

Uma rádio individual, programada e sempre a tocar, só com conteúdo escolhido e programado por mim, que toda a gente pode subscrever e seguir. Não é muito diferente do que já se passa com as listas de músicas e, se pensarmos um bocadinho, com as stories do Instagram. Mantém o cultivo do ego (vai ser difícil libertarmo-nos desta), e resolve a dificuldade em encontrar novos conteúdos, porque seguiremos pessoas em vez de programas. E todos quererão seguir ou integrar o canal de uma Kardashian ou do Cristiano Ronaldo.

Até pode ser que nada disto esteja planeado. Ou que a Netflix chegue a este formato antes dos outros (bem precisa também). Mas parecem-me poucas as alternativas viáveis, porque pelo menos em termos globais a saturação de conteúdo começa a ser demasiada.

Não demoraremos muito a perceber se acertei, mas se inspirei alguém a criar um novo serviço peço só que se lembrem de mim quando enriquecerem. MB

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