1998 e o fim da minha inocência no futebol

Eu amava demais a Seleção Brasileira. Tanto quanto amava o Palmeiras. Como nasci em 1990, minhas primeiras memórias de vida foram diretamente relacionadas ao Tetra e ao bicampeonato brasileiro em 1994. Dos poucos flashes que ainda trago destes tempos, as figurinhas, as cores e os craques são os que mais me encantam. A bola de couro com as bandeiras dos países da Copa, aquele cheiro de infância, o início de uma vida entregue ao futebol. E que se não fosse por ele, nem estaríamos tendo esta conversa.
O tema deste texto, no entanto, não é o saudosismo. Não é a falta que Romário, Dunga, Zidane, Raí, Edmundo e Evair fazem. É sobre o fim da inocência. Vejam: até os meus oito anos, eu fui moldado por times vencedores. O Brasil estava no pico de suas glórias com equipes fortíssimas e jogadores que estavam no topo do mundo. O Palmeiras vivia com a Parmalat o período mais tenro, com títulos a rodo, não importa quem estivesse vestindo a sua camisa.
O futebol não era mágico, mas ganhava. E para uma criança, a melhor forma de se explicar uma paixão é por meio das vitórias. Depois que a gente amadurece é que outros fatores vão entrando em jogo: identificação, afinidade, empenho dos jogadores, as histórias que são escritas como plano de fundo da bola rolando. Com oito anos, eu tinha acabado de descobrir como era perder uma final de Brasileirão, aquela para o Vasco, com dois empates. Como odiei o Edmundo (me perdoa, Animal), como xinguei o Evair (me arrependo) naquele fim de ano de 1997. Estava passando as férias em Ourinhos e vi do chão do quarto do meu tio a demolição do sonho do meu tricampeonato brasileiro.
Naquela época eu já tinha o apelido óbvio de “Parmalat”, por causa das trocentas camisas do Palmeiras que meu pai e meu tio me davam. Eu descia para a quadra de terrão do condomínio pra jogar inteiramente uniformizado, minha mãe é que devia achar um horror lavar tudo aquilo cagado de terra no dia seguinte, as chuteiras pretas que ficaram marrons e furadas com as pedras do chão. Doeu demais perder em 1997. Mas com o Viola em campo, nem tinha como. Aprendi com o meu pai que deveria odiá-lo com todas as forças pelo que nos fez no início da década. Ainda que a comemoração do porco fosse plenamente vingada com o 4–0 no Paulistão, todo rancor era pouco para Viola.
Em 1998 eu vivi aquela Copa do Mundo com toda a disposição de um menino que não tinha nada pra fazer da vida no início das férias. Colecionei o álbum de figurinhas, já não tinha mais aquela camisa do Brasil de 1993, sabe-se lá onde minha mãe havia enfiado. Mas o sentimento era o mesmo. Pelo Brasil e só pelo Brasil. Confesso que me encantei com a Iugoslávia também, mas isso é outra história. Vi com o meu pai a maioria dos jogos de 1998 e me lembro de estar confiante de que sairíamos com o Penta. O primeiro sinal de drama veio com a derrota para a Noruega. “BEBETO, FILHO DA PUTA!”, dizia meu pai, aos berros, quando os escandinavos viraram o jogo.
Do jogo contra a Dinamarca (que loucura, puta merda) em diante, estava em Ourinhos para acompanhar o restante do torneio. Mais figurinhas trocadas e os bonequinhos de jogadores que vinham no Sucrilhos. O Brasil passou com sufoco pelos daneses e foi credenciado a enfrentar a Holanda nas semifinais. Quase a mesma Holanda de 1994, só que melhorada. Eu também vi o confronto com a Laranja da casa dos meus tios e recordo bem de como foi difícil batê-los nos Estados Unidos. Na França, venderam mais caro ainda a vaga.
O que eu não sabia era que a França era aquilo tudo. Quer dizer, vi os jogos anteriores e, dos meus esboços mentais, não saía nada que me mostrasse que na verdade os Bleus eram favoritos. Muito porque eu ainda não acompanhava futebol europeu e porque o clima de oba-oba na imprensa me contagiou. Eu comprei o discurso do Galvão e acreditei que iríamos arrebentar com os franceses no Stade de France. Fui atraído para uma armadilha que permeou minha adolescência e minha visão do futebol enquanto adulto.
O Brasil se chocou durante a tarde com a notícia sobre Ronaldo. Tinha gente na vizinhança chorando porque ele havia morrido, mas foi “só” uma convulsão e alguém teve a ideia de escalar ele mesmo assim, podraço, no lugar do Edmundo, que estava em grande fase e poderia ter feito a diferença. Devia ter notado ali que perderíamos. Mas a criança confiou em Dunga, César Sampaio, Bebeto, Rivaldo, Taffarel, Roberto Carlos, Cafu e Júnior Baiano. A criança não acreditou quando Zidane testou firme no primeiro gol e no segundo. A criança preferiu manter a fé até os 30 do segundo tempo, para que a resignação completa tomasse conta e a inédita sensação de impotência e tristeza moldassem o meu caráter.
Petit fez o terceiro, mas nem precisava. Não precisava. Não me lembro se chorei, mas o clima era de velório completo. Foi tão triste quanto ver minha família em luto por causa da minha avó, meses depois. A imagem de todos eles de cabeça baixa, da minha prima chorando e o meu tio com a cabeça apoiada nas mãos dizia tudo: o nosso Brasil finalmente perdeu. E perdeu justo quando não podia. Não me revoltei com nenhum jogador em especial. Mas a França virou minha vilã favorita. Odiei os Bleus em 2000, quando ganharam a Eurocopa. Torci como louco para a eliminação deles em 2002, saí na janela para gritar “CHUPA, ZIDANE”, em uma rivalidade comparável ao que os brasileiros sentiam quando Alain Prost triunfava sobre Ayrton Senna. Zidane era o novo Prost: genial e vitorioso como o Professor.
Em 2002, tivemos a chance de nos redimir. Vencemos uma Copa absolutamente tranquila com aquele timaço. Foi, provavelmente, o título mais fácil que eu já vi algum time conquistar. Ainda que tenhamos sofrido um pouquinho com a Turquia, com a Bélgica e com a Inglaterra. Não parecia que o Brasil deixaria escapar o Penta. Eu tive medo de encarar a França no caminho e eles nos imporem outra derrota humilhante. Por sorte, caíram antes.
O que, claro, não impediu que nos encontrássemos novamente em 2006. E que time tinha o Brasil. Ainda mais promissor do que 2002, com Kaká em grande fase, Ronaldinho, Adriano, Ronaldo. Quem não se empolgou com as vitórias na primeira fase e o atropelo contra Gana? Quem não confiava que a França seria finalmente punida por 1998? Não me lembro de uma alma pessimista naquele dia. Disse para a minha irmã que tinha algo errado, não estava sentindo que ganharíamos. E não era pessimismo, era um mau pressentimento. Ela, que me acompanhou nas derrotas palmeirenses em 2000 e 2001 e nutriu igual ódio pelo Boca Juniors, algo que atravessou as décadas.
O Brasil perdeu para a França. De novo. Por que justo para eles? Por quê? Eu nunca entendi. Faustão brincava que o país comemorava a partida da Seleção Argentina (de volta para Buenos Aires) e que o Hexa estava perto. Mal sabíamos nós da vingança galopante no destino. E assim, a Copa de 2006 seguiu seu curso. Eu torci bastante para a Itália, tanto quanto para o Brasil. Pude comemorar o tetra deles por Totti e De Rossi, além de Nesta e Cannavaro, grandes ídolos que tive. Mas o encanto pela nossa Seleção acabou. Me ofendi demais com a falta de comprometimento, com a festa exagerada, com a badalação do “Quadrado Mágico” e os invasores de treino em Weggis.
Parei de torcer ali e a Seleção me é só mais um time que de vez em quando é legal de ver jogar. Não foi vergonhoso, mas aquele foi o meu 7–1, foi o meu 3–0 de 1998 revivido, foi o choro de quem entendeu que acabava um grande ciclo ali: o do Brasil como a maior seleção do mundo. Ronaldo e Ronaldinho não eram mais os meus heróis, Parreira era só um velho ultrapassado e até o coitado do Cafu eu não poupei. Me distanciei das Copas do Mundo como torcedor, e por mais que admire alguma equipe no torneio, elas nunca mais vão ser tão brilhantes e gloriosas para mim como na infância.
De alguma forma, hoje consigo ver as Copas por meio das histórias que antes eram ignoradas, pela festa que é ver países pequenos estarem sob os holofotes. Mas não é como se a minha vida dependesse do resultado de um Mundial. Continua sendo o maior evento possível, que me marca demais, com os meus jogos favoritos. Só morreu o lado torcedor, que foi afogado pelas mágoas e feridas causadas lá em 1998, rasgadas por mais momentos de genialidade de Zidane. A França não é responsável pelo meu desinteresse a respeito do Brasil. A própria Seleção é que deu cabo de matar uma relação cultivada com tanto carinho. Não torci e não me causou grande impacto, mas entendo perfeitamente quem até hoje ainda sente calafrios de lembrar da Copa de 2014. É triste ver um grande amor te tratar como se você fosse lixo, esmagando as emoções com atitudes cretinas ou a falta de paixão pelo jogo que todos nós certamente temos no coração.
O 3–0 de 1998 ajudou um pouco a tornar a dor mais real. Ela impediu que 2006 fosse considerado um pesadelo à parte, algo fora da curva. E de algum jeito ensinou que não é possível ganhar para sempre. Por último, uma dor ainda permanece: a de ter de aturar gente sendo saudosista com a geração de 2006, porque perdemos, apenas perdemos, sem passar vergonha. Não, meus amigos. O Grande Brasil que eu tenho na memória nem sequer perdia. A gente era feliz e sabia disso, não precisamos colher migalhas de honra depois de tantas surras repetidas. Idolatrar os fanfarrões da Copa de 2006 é uma heresia que só se compara a diminuir a Seleção de 1982 em função da derrota para a Itália. Temos história sim, temos toda a história a nosso favor. Mas desde 2005 as coisas desandaram e saímos do topo.
Quem sou eu para falar de identificação com a Seleção? Eu só tenho as cicatrizes do tempo em que a projeção que se fazia era de pelo menos mais cinco títulos mundiais até 2026. Cresci, aprendi outras lições no esporte e até mesmo deixei de odiar a França. Só o amor pela camisa canarinha é que dificilmente será restaurado. Talvez porque tenhamos outras 100 coisas tão apaixonantes quanto ela no futebol de hoje. E como é bom ver o jogo sem lupa, podendo reparar na grandeza de variedade nas histórias que contamos.