Saddam (ou os companheiros que não damos o devido valor)

Conheci o Saddam quando era bem moleque. Eu era arteiro, gostava de atazanar a vizinhança ourinhense com bombinhas, gritos, barulhos, aquelas coisas que as crianças fazem porque pensam que são donas do mundo. Na verdade, elas são mesmo, mas felizmente não têm certeza disso.

Saddam me botava medo. Rosnava forte, ardido, olhava com raiva e corria para o portão, alucinado, quando via a molecada passando de bicicleta como se fosse uma parada de fim de ano. Era o guardião da casa do meu tio João, que lá pelos anos 2000 voltou a Ourinhos e retomou a sua fama de cachaceiro e lunático. Bem, descanse em paz, tio João.

O fato é que Saddam ficou naquela mesma casa por uns quinze anos. Não saiu nem quando o tio João morreu, muito menos quando a casa que era da minha vó passou a ser da minha mãe, entre tantas reformas até virar o que é hoje. Eu nunca fui muito próximo dele, muito por achar que ele era arredio e nervoso do que propriamente por detestar o bicho.

Saddam então virou o ancião da casa, perdeu toda a atenção dos donos quando se viu em companhia de mais dois pivetes. Um beagle chamado Carlitos e um labrador chamado Milos. (Desculpa, mãe, mas eu me recuso a apresentar os dois como Tico e Teco) Saddam sempre gostou de uma farra. Quando o portão da casa abria, o cachorro voava pra calçada, mijava na árvore e passeava pela quadra, provavelmente atrás de outra cadela na rua. Sabia viver. Aos poucos, ele ganhou minha admiração. Era gordo, velho, mal conseguia se mexer, mas se sentia como um filhote.

Demorei a me afeiçoar a aquele cachorro feio e fedido. Mas mesmo sendo um cachorro feio e fedido, ele era um ser que merecia o meu carinho. Assim como qualquer outro. Entre pratos de comida e visitas periódicas, Saddam ganhou alguns pedaços de carne, alguns afagos e companhia. Vivi uma fase meio pesada e lembro dele quase todo dia ao lado da minha cama, esperando que eu acordasse e estendesse a mão pra um cafuné. Fazia a mesma coisa com o meu padrasto. Ficou carente e era difícil disputar com os dois mais novos, bonitões e carismáticos, justamente porque ele era o contrário disso.

O que faz de Saddam um cachorro admirável é a sua lealdade e sua gratidão. Qualquer demonstração de afeto era o mundo pra ele. Ficava ali do meu lado, sem olhar torto, sem latir, só descansava e me fazia sentir seguro se por acaso alguma tragédia da vida me abatesse. De uns tempos pra cá, ficou cego, meio surdo, cambaleante, mal brincava, mal saía. Era a velhice que tirava o brilho do olho de mais um animal, uma entre milhares de histórias de bichos que refletem a nossa vivência de uma forma cruel e acelerada.

Estou certo de que ele recebeu os melhores bifes, frangos e rações que a minha mãe podia pagar. Que quando começou a mancar e travar o pescoço, da última vez que o vi, devia saber que estava na fila. Naqueles dois dias, aceitou quieto a mão na sua cabeça, nem tentou mais disputar atenção com os irmãos mais novos. Meu padrasto dizia que ele já estava indo, mas verdade seja dita, a gente nunca sabe quando está partindo de verdade.

Gente que se arrasta por aí com uma sentença de morte, mas de repente, numa brisa, ganha alguns anos de acréscimo, uma nova chance de viver como achamos certo ou como os outros julgam ser errado. Otimista, eu discordei que Saddam estivesse perto do fim. O tempo havia mudado e certamente isso teve um impacto na saúde do cachorro, um vira-lata que fez jus às suas origens. Meu padrasto pensou melhor e lembrou que não era a primeira vez que ele se sentia tão mal.

Entre operações delicadas de pessoas aqui, doenças crônicas ali, Saddam sobrevivia. Minha mãe contou ao telefone que ele andava abatido, mal levantava do seu cantinho da sala, nem mostrava vontade de comer. Cego, ia na cola dos mais novos até achar a tigela de comida e a de água. Saddam sobrevivia até hoje de tarde, um domingo de páscoa diferente.

Aí eu coloquei a mão na consciência e lembrei que poderia ter sido um pouco mais atencioso com o bicho, que de forma alguma foi rancoroso por todas as bombinhas e rojões que estourei, todas as vidraças que quebrei deliberadamente com a bola, quando achava que era o Beckham caipira do outro lado da rua. Ele e meu tio João devem me desculpar pela insolência adolescente, porque como adulto, lembro das travessuras com um riso repleto de pesar.

Saddam certamente me perdoou e eu finalmente senti que vou ter saudades. É uma porcaria ter de ouvir que você perdeu um cachorro, a primeira vez que ouço isso em 25 anos. Um cachorro que nem era tão meu amigo quanto eu gostaria, mas que ficou ali do lado quando a barra estava difícil de segurar. Vendi minha lealdade muito barato nesses últimos anos e devia tê-la gasto com meus amigos de quatro patas.

Mas a notícia, por mais que seja um alívio por vê-lo descansar, me mostra que eu não estou preparado para as próximas perdas. Tá aí mais uma lição que você vai me ensinar, velhinho. Descansa aí no teu céu de cachorros, tá?

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