DE QUEM SÃO AS CAUSAS?
Há horas que venho pensando sobre essa discussão dos protagonismo. E como não tenho certeza venho me abstendo de comentar causas que eu gostaria de defender. Mas, depois que escolhi fazer um trabalho de rádio jornalismo sobre meninas negras em transição para o cabelo natural, isso vem me incomodando, que nem aquela pelezinha que fica no canto da unha sem que a gente tenha um alicate por perto. Aconteceu com o #belarecatadaedolar também, quando homens, gays, trans começaram a postar fotos.
Já tinha falado disso com um professor de antropologia da faculdade e para ele “não poder falar da causa porque eu não sofro as consequências na pele” é uma falácia. Segundo este professor (que eu não vou citar o nome porque não tenho mais contato com ele e não sei se ele gostaria), a antropologia precisa dos dois registros: o do antropólogo negro que vai analisar racionalmente a questão racial, mas também vai colocar paixão e subjetividade, e do antropólogo branco que, por ser branco, consegue se distanciar da causa. Segundo este professor, as falas se complementam e se fortalecem.
Bueno, voltando ao programa de rádio a questão é, como a transição das mulheres negras vai modificar a auto estima, mas também vai criar uma identidade e representatividade da negritude. E como isso vai influenciar tanto os negros, quanto os brancos, amarelos, vermelhos, daqui há 25 anos. Essa é uma causa de todos nós que, pelo menos na minha visão e na visão da minha colega, vai transformar o mundo em um lugar melhor pra gente viver. Mas as pessoas brancas não querem roubar o protagonismo negro da causa e não falam, ou falam e depois mudam de ideia, pedindo que a gente não use a gravação. E juro, nem nós queremos roubar protagonismo algum. Fico pensando no que as pessoas acham quando duas meninas brancas resolvem fazer um trabalho sobre esse tema. Será que não pode? A maioria dos entrevistados são negros, eu realmente acho que ninguém melhor do que negros para falar sobre isso. Mas eu fico sedenta por brancos, azuis, vermelhos, verdes e amarelos corajosos e cheios de empatia e admiração.
Quanto à causa do #belarecatadaedolar senti falta de homens que, ao invés de publicarem fotos de si vestidos de mulher, publicassem fotos de mulheres de seus convívio belas de qualquer forma, livres e do bar. Mas eu, como mulher, acho que o feminismo é uma causa de todos nós. Na verdade, eu queria estar discutindo coletivismo pelas causas, não protagonismo.