EDUCAR PARA A PRÁTICA

Tem pautas que a gente sugere pra gente mesmo. E eu tinha certeza que sentar com a Professora María Del Pilar Tobar Acosta e com suas alunas, antes de uma entrevista, ia ser um grande aprendizado.
Sou filha de dois professores que trabalham no município de Cachoeirinha, atendendo comunidades carentes e de risco. E sei o quanto é difícil inspirar crianças e adolescentes nessas condições. O quanto é difícil encontrar parceiros disponíveis, direções colaborativas.
A Professora Pilar me mostrou que apesar de difícil, ensinar para a prática não é uma missão impossível. Visando um trabalho de pedagogia de projeto, com embasamento e técnica, ela mostrou aos seus alunos de ensino médio que eles são muito mais capazes do que imaginam. Isso eu pude ver nos olhinhos brilhantes da Vanessa e da Anna Lysa que, como disse a professora, vão ser mulheres de uma geração muito mais capaz que a nossa.
O filme que deu start no projeto foi “Uma história de amor e fúria”, de Luiz Bolognesi, que depois virou o livro “Meus heróis não viraram estátua”. O filme é uma animação bastante didática que está disponível no Youtube. Vale a pena! Ele foi usado para pensar a sociedade machista e a réplica dela dentro das escolas: a maioria dos professores são mulheres, assim como os alunos das turmas de ensino médio. “É uma característica do campo da educação por causa da divisão do trabalho. A mulher deveria ficar com o que mais se parece com o trabalho doméstico. E quanto aos alunos, existe uma evasão escolar brutal ao longo do ensino fundamental e, geralmente, quem persistente na educação são as meninas. Talvez por uma percepção de que se não for pela via do estudo, não tem outra solução”, explica a professora.
Depois de aulas sobre Frida Kahlo, Milevac Malic, Vanessa da Mata, entre outras, os alunos teriam que escolher a sua heroína sem estátua e desenvolver o trabalho que quisessem para apresentá-las. “Poderia ser uma que tivesse contribuído para o mundo ou para dentro de sua própria casa. Afinal de contas, as grandes heroínas da nossa nação são as chefas de família que não tem reconhecimento, nem visibilidade. E são justamente as mães e as avós dos meus alunos”, defende Pilar.
“Eu achava que tinha que mostrar que as mulheres tem valor e que existe uma história que não foi contada: a história dos vencidos. Porque quem contam as histórias são os vencedores”, afirma.
“Nunca ninguém tinha feito essa proposta pra nós. A gente passou a vida inteira estudando homens. Ver que além de importantes, as mulheres são cruciais para tudo, foi muito legal . Nós ficamos abismadas, nos perguntávamos, como assim?”, relembra Ana Lyssa Valim.
Vanessa Lima emociona-se falando que o projeto foi transformador. “Eu falei sobre a Angela Davis, que foi uma americana presa por defender o direito dos negros e das mulheres. Eu não gostava de me assumir como negra, por terem me dito a vida toda que era uma coisa ruim. Depois de ver a luta da Davis eu cortei o cabelo curto e deixei ele crescer para ficar natural, crespo. Eu não vou mais ser submissa por ser mulher, muito menos por ser negra”, comemora. Anna Lysa complementa a colega e diz que agora orgulha-se por ser mulher. “Mesmo com todas as dificuldades que a gente ainda tem é bom, e cada dia é uma vitória. Eu e a Vanessa com nossos cabelos afro somos objeto de inspiração e não é por status, é por nossas crenças. Estamos prontas para inspirar”, vibra.
Nem tudo são flores e por diversas vezes a professora foi questionada por não ensinar a gramática da forma convencional. O que a maioria dos pais perceberam depois, é que ela estava ensinando de uma forma muito melhor. “Um deles, que adorava desenho e escultura, me perguntava toda hora se eu tinha certeza que ele poderia fazer qualquer trabalho. Ele nunca tinha tido espaço para produzir algo que realmente gostasse, valendo nota. A vontade de mostrar o potencial criativo era um ponto de vantagem para o trabalho, a valorização da produção cientifica e artística do conhecimento pelo jovem”, explica a professora.
E o mais significativo para mim, que odiava matemática (sorry pelas afirmações a seguir, mãe),e sei a fórmula de Bhaskara até hoje hoje e nunca usei: “A mãe de uma aluna contou que, depois do início do trabalho, a menina ensinou que ela não podia deixar o marido agredi-la. Olha o prêmio que eu estou recebendo como pessoa, não é nem mais como professora”, emociona-se Pilar.
"A mudança da sociedade e da educação é um sonho possível de ser realizado. Depois de um ano deste trabalho as meninas ainda falam sobre solidariedade, empatia, sororidade. Isso é porque elas estão vivendo o que estudamos e essa é a perspectiva mais importante do ensino. São meninas com 16 anos que vão ser muito melhores do que a minha geração e esse é o maior prêmio que um professor pode ter”, finaliza Pilar.