Muro

Canteiro de obra. Pedreiros constroem um muro. Donald Trump aparece e fala com eles:
- Como é que tá aí?
- Tá andando.
- Esse muro tá pequeno.
- Pequeno é teu pau — responde baixinho um dos pedreiros. Mas o presidente americano escuta apenas um grunhido indecifrável, sem entender nada:
- Como é?
- Tá faltando material, seu “Trump.”
- “Tramp”. A pronúncia certa é “Tramp.”
- Pois é. Vai ter que comprar mais rejunte, seu “Trump.”
- Comprei tudo da lista, rapaz! Cadê o mestre-de-obra? Quero falar com o mestre-de-obra.
- Pera aí que vou chamar: Seu Jurandi!
Um homem jovem, magro, careca e de óculos redondos aparece sem camisa e todo sujo de poeira.
- Opa, seu Tramp.
- Que história é essa de comprar mais rejunte, Jurandi?
- O muro é grande, seu Tramp. E sabe como é obra, né? Tem sempre imprevisto.
- Fazer o quê. Melhor do que gastar com os la cucaracha.
Efeito de passagem de tempo. Volta para canteiro de obra. Vemos agora um muro tão alto que não dá pra ver onde ele termina. Trump visita de novo a obra e fica satisfeito com o que vê:
- Agora sim! Isso é que é um muro, Jurandi!
- Que bom que o senhor gostou, seu Tramp.
- E como gostei! 
- Só tem um probleminha.
- Que foi? Tá faltando o quê agora?
- Nada, o muro tá pronto. O problema tá lá em cima. Vamo lá que eu mostro.
Trump e o mestre-de-obra sobem por uma escada que leva até o final do muro. Quando chegam ao topo, Trump se assusta com o que vê: várias viaturas do FBI o esperam no lado americano.
- O que significa isso, Jurandi? — pergunta Trump, aflito.
- Eu posso explicar.
- E eu exijo uma boa explicação.
- Na verdade o meu nome não é Jurandi, é Marcelo. Eu sou um ex-empreiteiro e arranjei encrenca com a justiça brasileira. Então fugi do Brasil e agora trabalho ilegalmente com construção aqui nos EUA há 7 anos. 
Trump fica com um olhar perdido, perplexo. Depois de alguns segundos, ele volta a si:
- Marcelo Odeb…?! Oh, my god! E por que você não me contou isso antes?
- Pra quê? Pro senhor me mandar de volta pro Brasil? Nem a pau!
- Pode ter certeza disso! E por sua culpa agora eu tô fodido!
- Depende do lado que o senhor escolher.
- Pera aí. Você não está sugerindo que eu fuja pro lado mexicano, está?
- O mundo dá voltas, hein?
- Son of a bitch! I wanna kill you! — Furioso, Trump tenta enforcar o empreiteiro com as próprias mãos. Marcelo escapa fácil do ofegante presidente e comenta:
- Isso só vai piorar as coisas.
Trump se acalma. Até olhar pra baixo e perceber que a polícia americana está subindo a escada.
- Não temos muito tempo. Vamos pular pro México ou vamos continuar em cima do muro?
- Palhaço!
- Desculpa o trocadilho.
- Think, Mr. President. Think — Trump fala consigo mesmo, andando de um lado pro outro, indeciso — Se descer pro lado americano, vou preso na hora. Se pular pro lado mexicano, vou ficar paraplégico ou…pior ainda! Vou ter que morar ilegalmente com las cucarachas! I can´t believe it!
Corta a cena pra uma rua qualquer de Acapulco. Os dois aparecem agora num trailer. Enquanto Marcelo prepara burritos, Trump toca violão sentado numa cadeira de rodas, disfarçado de Mariachi. Entre uma música e outra, o presidente comenta:
- Maldita hora em que eu pensei nesse muro, hein, Jurandi! Quer dizer, Marcelo.
- É, seu Tramp. Sabe como é obra, né? Tem sempre imprevisto.

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