Divã grampeado

Consultório psiquiátrico. Com as pernas inquietas, visivelmente desconfortável, um deputado está sentado no divã. Depois de um longo silêncio, o psiquiatra pergunta:

- Então, deputado. Conte-me mais.

- Ué, já falei tudo. Não tenho mais nada a declarar — responde secamente o político, com um olhar desconfiado.

- Não há nada que o senhor queira acrescentar sobre o que está sentindo? Tem certeza?

- Absoluta.

- Bom, até agora, a única coisa que o senhor me contou é que anda preocupado.

- E quem não anda preocupado hoje em dia, né? Com esse mundo doido. — comenta o deputado enquanto olha ao redor do consultório, como se procurasse alguma coisa.

- Deputado, o senhor já é meu paciente há anos. Sabe que pode confiar em mim, não sabe?

- Claro que sei.

- Então não precisa esconder nada, certo?

- Escondendo? Eu? O senhor por acaso tá me julgando, doutor?

- Que é isso, deputado. Quem sou eu pra julgar. Isso a gente deixa pro STF — responde o psiquiatra com um sorriso no rosto.

- STF?! — comenta o deputado depois de dar um pulo no divã.

- Foi uma brincadeira.

Ao notar as pernas do paciente balançando cada vez mais rápido, o psiquiatra pergunta:

- O senhor não me leve a mal, deputado, mas tem algo incomodando?

- O de sempre, né? Desemprego, exclusão social, saúde pública — responde o deputado agora em pé, verificando as costas de um quadro na parede do consultório.

- Sei. Mas o senhor sabe dizer o quê exatamente o preocupa?

- É a vida. E é bonita, e é bonita… viver e não ter a vergonha de ser feliz…

Enquanto canta com um sorriso amarelo, o deputado verifica as gavetas da mesa do psiquiatra.

- Desculpa, deputado, mas o senhor tá desviando o assunto.

- Desviando o quê, doutor? Não entendi direito — comenta o deputado com um tom irritado, se fazendo de vítima. Nesse momento, ele procura algo na camisa do psiquiatra.

- Desviando o ass…

- Opa, opa, opa! Vai mesmo me acusar de desvio sem ter prova, doutor? Sabia que isso é crime?

- Calma, deputado. Tá havendo um grande mal entendido aqui. Eu só quis dizer que o senhor não está colaborando com meu trabalho.

- Ah, e ainda por cima insinua que eu estou obstruindo a investigação, é isso?

- Não, não, na verdade eu só queria uma explicação.

- E eu também! — esbraveja o deputado. Em seguida, ele puxa o celular de um dos bolsos da calça do psiquiatra e completa: — Posso saber o que significa essa câmera nesse celular?

- Ahhh, então era isso que o senhor tanto procurava? Uma câmera? Olha, sinto decepcioná-lo, mas essa veio junto com o celular.

- Pra cima de mim, doutor? Não vem com balela! Agora eu só falo na presença do meu advogado.

- Fique à vontade, deputado. Aliás, aproveita que o senhor tá com meu celular na mão e dá uma ligadinha pra ele. Que tal?

- Deixa pra lá.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.