Fantasias

Rodrigo Santiago
Jul 28, 2017 · 3 min read

Fazia tempo que o casal andava distante. Sempre botavam a culpa na rotina: filhos, casa, chefe, mestrado, contas atrasadas. Os momentos juntos eram cada vez mais raros. Até que um dia resolveram deixar as crianças na avó e ficar a sós em casa. Ele chegou perto. Deu um beijo no pescoço da esposa, que respondeu na mesma hora:

- Hoje não, Roberto. Tô com dor de cabeça.

- Dor de cabeça de novo, amor?! Você podia ao menos inventar outra desculpa.

- Olha só quem tá reclamando de criatividade! O Senhor Cueca do Super-Homem! — responde a esposa irritada. Os dois ficam de cara fechada, cada um de um lado da cama.

- Então é tudo por causa da minha cueca asa-delta? — pergunta o marido, decepcionado.

- Pelo amor de Deus, Roberto, você não entendeu nada, né? O problema é a mesmice em que a nossa relação chegou.

Dois minutos em silêncio. Marido se aproxima cautelosamente da esposa. Com uma expressão cafajeste, ele sussurra no ouvido dela:

- E se eu realizasse todas as suas fantasias na cama?

- Hum-hum — responde a esposa com um ar debochado, de costas pro marido.

- Valéria, Valéria… você nem imagina o que eu posso fazer!

- Então me diz, Roberto. O que é que você pode fazer? — ela pergunta com cara de tédio.

Marido chega perto da esposa e sussurra mais uma vez no ouvido dela:

- Temaki.

A esposa fica curiosa e pergunta:

- Acho que eu não entendi bem. Pode repetir, Roberto?

- Temaki num delicioso molho tarê com cream cheese.

Toda animadinha, a esposa se vira e toma um susto: seu marido agora veste um quimono e segura uma bandeja com o Temaki.

- Adorei, meu Samurai! — diz a esposa abraçando o marido enquanto come o Temaki.

Ele tem uma expressão confiante. Sabe que está no controle da situação:

- Calminha que tá só começando, baby — diz o marido enquanto pega um enorme e grosso pepino.

- Roberto! O que é isso! — A esposa se assusta com o tamanho da surpresa.

- Hora de relaxar. Fecha os olhos, vai.

Desconfiada, ela fecha os olhos. Com um pote de creme na mão, o marido espalha uma lama cinzenta no rosto da esposa. Em seguida, depois de cortar o enorme pepino com uma faca, ele coloca duas fatias sobre as pálpebras dela.

- Prontinho. E aí, é ou não é relaxante?

- Huuummmm — responde a esposa com um gemido. Ela continua:

- Noooossa, Roberto, eu só não me jogo em cima de você agora porque essa máscara tá uma delícia! E também porque ia melecar meu lençol e eu ia ter que lavar tudo depois.

- Disse bem: ia lavar. Não vai mais.

- Como assim? — Esposa tira as fatias de pepino de cima dos olhos e tem uma nova surpresa: agora seu marido veste um avental de faxina e segura um balde cheio de roupa. Ele fala com um ar triunfante:

- Me suja todo, vem, gata!

- Ai, Roberto! Assim eu fico louca!

A esposa se agarra com o marido e os dois rolam na cama aos beijos. Minutos depois, ofegante, ele pega um voucher do Barato Coletivo e diz:

- Chegamos ao grand finale: vestido com 70% de desconto!

- Ahhhhhh!!!! Não acreditooooo! — responde a esposa gritando, eufórica.

- Já dá até pra aposentar aquele seu vestido apertado, né? — pergunta o marido. A esposa fica em silêncio por um instante. Logo em seguida, a euforia vira ódio:

- Que história é essa de vestido apertado, Roberto? Você tá dizendo que eu tô gorda, é isso?

- Claro que não, amor. É que eu…

- Sabe o que é que você deveria aposentar, Roberto?

- O quê?

- As cuecas do Super-Homem.

Marido olha pra sua cueca asa-delta e comenta de cabeça baixa:

- Não precisava quebrar o clima, né?

Rodrigo Santiago

Redator publicitário, escritor e criador do Poucas&Bobas: página de contos, crônicas e esquetes cômicas.

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