Hipocondria

Tem gente que é assim: qualquer pontada já pensa que é a Morte cutucando com sua foice. Dorzinha nas costas? É Tuberculose. Tosse? É Peste Bubônica. Ou no mínimo Doença de Chagas. Esculhambou a mãe do juiz no estádio? Síndrome de Tourette (doença que te faz perder o controle e falar palavrões. Não, não tem nada a ver com o time que você torce.)

Tirando a hipocondria, o resto é tudo doença imaginária. Aí você raciocina: bom, se hipocondria é doença, provavelmente ela tem cura, certo? Mais ou menos. Às vezes a cura só piora a doença. É o caso das bulas de remédio e suas assustadoras reações adversas. Resultado: hipocondria 100% ativada.

- Doutor, é melhor eu mudar a medicação.

- O que houve? O senhor não melhorou da ansiedade?

- Melhorar, até melhorei. O problema é o resto.

- Como assim?

- Agora eu tenho tido pruridos, rash cutâneo, convulsão, síncope nervosa, taquicardia…

Viu só? Depois de assistir inúmeras temporadas de Dr.House, E.R. e Gray´s Anathomy, uma hora eu ia aprender um pouquinho de medicina.

O mais curioso é que o hipocondríaco sequer sabe o que significa rash cutâneo e ainda sim sente a tal reação. Você que tem uma mente sã vai dizer que reações como essas acontecem em 1% ou menos dos casos. Mas, na cabeça do hipocondríaco, é o suficiente. Experimenta convencê-lo de que a chance é remota. Certamente ele vai se irritar e rebater com um desaforo do tipo: — A chance do Titanic afundar também era menos de 1%.

Mas tem coisa mais preocupante que bula de remédio. Eu me refiro àquele estimulante natural da hipocondria com o qual o hipocondríaco convive diariamente: o colega sacana do escritório. Sabendo da sua condição adversa, o amigo da onça tripudia:

- Tá tudo bem, Freitas?

- Tá sim, por quê?

- Eu tô te achando meio amarelado hoje. Os olhos inchados.

- Tô, é?

- O cabelo tá caindo também. Você já foi ao médico ver isso? Pode ser coisa séria.

Quanta maldade! Enquanto o hipocondríaco mede o pulso e tira a temperatura escondido no banheiro, metade da firma ainda ri da “brincadeira”. Na mesma tarde ele ainda vai marcar consulta em vários médicos diferentes, só pra garantir. É sempre bom ouvir uma vigésima sétima opinião.

E ai do pobre coitado se for buscar no Google os sintomas descritos pelo colega. Pele amarelada, olhos inchados, queda de cabelo. Na melhor das hipóteses ele tá virando o Hommer Simpson. Se duvidar, já começou a escrever seu testamento.

O pior da hipocondria é que a doença imaginável te acompanha por toda parte. Você pensa que tem Malária, liga no Discovery Chanel e ela aparece: “No especial de hoje, África e as origens da Malária. Liga o rádio na AM e um comentarista esportivo fala de um jogador da Copa de 38 que morreu de Malária. Acessa a internet e vê um youtuber fazendo piada besta com Malária. Só falta olhar pro céu e passar um avião com uma faixa “Cuidado. A Malária está no ar.” Putz! Essa foi mais besta que a do youtuber.

Bom, chegou a hora de terminar o texto e eu não consigo pensar em nada inteligente. Isso porque ando meio cansado, com dor de cabeça e uma certa dificuldade de me concentrar. Seria alguma doença neurológica rara que me pegou subitamente, como Prosopagnosia ou Síndrome de Fregoli? Nenhuma das duas. Trata-se apenas de outra coisa que minha mente adora inventar: desculpa.

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