Tudo menos motel

Parado em frente a um motel, casal conversa dentro do carro.

- Tudo menos motel, Rogério.

- Mas nem hoje, amor? No nosso aniversário de casamento?

- Já falei que motel é sujo. Não tem romantismo.

- Como é que cê sabe? — pergunta o marido, desconfiado. Ele completa: — Cê disse que nunca foi.

- Sei lá, tô imaginando — responde a esposa, envergonhada.

- Hum.

- E eu me sinto uma pecadora.

(Silêncio)

- Eu sabia que era coisa da religião. Mas tudo bem, Lúcia. Respeito sua cisma.

- Ai, Rogério. Lá vem você implicar com a minha religião!

- Já falei que tudo bem, amor. Nada de motel.

- De coração?

- De coração, claro — comenta cinicamente o marido, enquanto engata a marcha ré. Ele continua:

- Cê acha que eu ia querer comemorar aniversário com meu amorzinho assim, chateada? Nem pensar! A gente vai pra casa da mamãe, pede uma pizza, bota um filminho de ação no Netflix, sei lá… um Mercenários 8, que tal? Acho que já estreou.

- Nós dois sozinhos em casa, no nosso aniversário de casamento, vendo Mercenários 8? — pergunta a esposa com cara de decepção.

- Sozinhos? Não, não. Tá todo mundo lá: papai, mamãe, Vó Gilma, Tia Ruth…

- Nada disso. Eu prometi fazer uma coisa diferente, não prometi? Então pode entrar nesse motel agora.

- Tem certeza?

- Absoluta.

- Marido faz uma comemoração contida e entra no motel. Quando o carro passa pelo portão, o motor começa a engasgar e morre. Ele fica puto:

- Puta que pariu! Agora fodeu.

- Que foi?

- O ar condicionado passou um tempão ligado e a bateria morreu.

- Tá vendo? Eu sabia que isso ia dar errado!

- Calma, meu amor. É só fazer uma chupeta que tá resolvido.

- Nossa, Rogério, como é que você consegue pensar em sexo numa hora dessa?

- Chupeta na bateria, meu bem.

Barulho de buzina assusta o casal. Quando eles olham pra trás, percebem que uma pequena fila de carros se formou atrás deles.

- Vou lá pedir ajuda.

Rogério abre a porta e sai. Ele bate no vidro de dois carros e nada. Até que, na terceira tentativa, um homem desce e acompanha Rogério até seu carro.

Quando Rogério volta, Lúcia toma um susto ao ver o pastor da Igreja ao lado do marido:

- Pastor Vagner?!

- Lúcia?!

- Ué, vocês se conhecem de onde? — pergunta o marido, com a testa franzida.

- Da igreja — respondem os dois ao mesmo tempo, nervosos, tentando abafar a desconfiança de Rogério.

- Mas me diz uma coisa, pastor. Ir pro motel não é pecado? — pergunta Rogério, com um ar curioso.

- Claro que é, irmão. Mas o pior pecado é desperdiçar a chance que o Senhor te oferece de ser feliz — responde o pastor, olhando com uma expressão decepcionada para Lúcia. Ela desvia o olhar.

Chega o domingo. Dentro da igreja, Rogério acompanha a esposa no culto pela primeira vez. Ao perceber a ausência do pastor Vagner, ele cochicha no ouvido da esposa:

- Que estranho. Cadê aquele pastor do motel?

- Sei lá, Rogério. Deve ter ficado doente.

- Pois eu aposto que ele foi expulso da igreja.

- O Pastor Vagner? Impossível! Aquele é 100% fiel ao Senhor.

- Só se for ao Senhor mesmo. Porque à esposa eu duvido. Onde já se viu, um pastor no motel?

- Vai implicar com a minha religião de novo, Rogério?

- Desculpa, amor.

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