Tudo é movimento

Em 11/4, fiz 87 quilômetros, a pé, entre Novo Hamburgo/RS e Santo Antônio da Patrulha/RS. Uma distância suficiente para mudar e, por que não, consolidar, uma visão que venho nutrindo sobre a prática esportiva já tem uma longa data.

Foi isso.

Nesse rolê quase até o litoral pude entender melhor esse meu sentimento, de onde nasce essa espécie de desgosto que tenho pela palavra competição. Ou o sentido que o ser humano deu a ela. Descobri minha real necessidade, aquilo que realmente busco quando saio para correr ou caminhar.

Se você ficar olhando muito para essa árvore terá a impressão de ver ela descolando da terra.

Sair a pé, sozinho, com uma mochila carregando água, comida e um pouco de dinheiro por um caminho que só conhecia pelo mapa fez eu compreender que, de fato, tudo é movimento, e isso não é um sentimento vago e muito menos óbvio como um ditado popular.

Tá vendo lá no fundo onde ainda tem neblina? Pra lá que eu fui.

Durante a jornada, por muitas vezes, andei 20, 30 minutos, sem cruzar nada nem ninguém. Quando isso acontece emerge um sentimento curioso. Primeiro pensei que estivesse sozinho. Tipo solidão. Enquanto ouvia o barulho das minhas passadas comecei a perceber que não era mais eu quem contemplava aquelas paisagens.

Ao contrário, eu fazia parte daquele cenário.

Fazia parte do quadro que eu contemplava. Isso coloca a consciência em um outro nível. Esqueci de comer. Comecei a ficar meio zonzo. Pensei que estivesse desidratando. Não, eu esqueci de comer mesmo. Penso que isso é algo que surge desse processo de inserção no cenário.

Descolei do personagem. Mergulhei na paisagem.

O quadro começou a se mexer e eu fui junto. Ou eu quem levou ele de arrasto. Fui, mas esqueci de levar o instinto. Desaprendi a comer quando não estou consumindo o ambiente, descolado da minha natureza e afeiçoado com o que penso ser a realidade. Enfim, cativo. Me habituei com a recomendação da gondola do supermercado e desaprendi a colher o que a árvore ou a raiz apontam para mim.

Sofri por ficar em cima do muro quando dei de cara na barreira cultural.

Retomei e me abaixei. Fiquei de cócoras, no meio da estrada, literalmente, e saboreei um pacote de Ruffles.

Era isso que eu via enquanto comia.

Sério: nunca mastiguei tanto algum alimento. Tanto que virou água e acabei consumindo como se fosse um líquido, não comida sólida. Sugiro que você faça o exercício de mastigar uma batata dessas até não conseguir mais. Sua boca fica com farelos boiando na banha, que por sua vez não mistura com a saliva. Tem muita gordura. E sal. Tudo o que eu precisava para resolver a minha debilidade em meio ao mato e o morro.

Passada essa fração da jornada, continuei caminhando. Mas depois que criei consciência da conexão com a paisagem não fazia mais nenhum sentido lembrar que vi um caminhão virado, que um monte de cães pelo caminho correram grudados nas minhas pernas, que em todo boteco que eu parava achavam bizarro o que eu estava fazendo.

Quando tudo é movimento fica difícil conseguir construir uma narrativa. Afinal, a paisagem consome a consciência e o corpo. Tudo vira a mesma coisa. E por tudo o que passei nesse dia, hoje também não sou a mesma coisa. Daí que a minha visão sobre o esporte faz sentido e se consolida.

Enquanto o corpo não se mexe tudo é perspectiva. Esporte é perspectiva. Tudo é movimento. A competição é da consciência integral contra a necessidade de construir uma narrativa sobre a experiência.

Se desse para traduzir tudo o que escrevi em uma imagem, seria com essa. Não tem muito foco, mas quer dizer alguma coisa.
One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.