Um devaneio sobre compartilhamento

Advertência: não lerás nas próximas linhas argumentos que decifram a origem do ódio e nem as razões dos haters que se manifestam nas caixas de comentários.

Como diz o MC Marechal: “Vamos voltar a realidade.”

A realidade é que estamos conectados e, em breve, não somente através de smartphones. Acessaremos diretamente cérebros de todo o planeta, assim como também teremos nossos cérebros acessados para alguma consulta por um cidadão de Cingapura ou da Noruega.

A realidade também é que, além da timeline do Facebook e do Instagram, não conseguimos, como humanidade, disseminar uma visão fundamental sobre compartilhamento e, principalmente, acesso: troca. Sim, troca. Dar e receber.

Vamos mais fundo na realidade.

Cabify, G-Suite e Facebook Workplace estão aí para fomentar uma economia de compartilhamento. Com abundância de recursos, não é mais a posse, mas o acesso que define a utilização do que há disponível: espaço em disco, veículos para deslocamento e ferramentas de troca de informação entre times de trabalho.

Entre acadêmicos e teóricos vivemos a era do conhecimento. E logo vem a do pós-capitalismo, pós-digital…

Precisamos assimilar todo o potencial que há nessa realidade que está e seguirá se moldando.

Não espere. O futuro não vai chegar. Ele está aí, mas ainda não foi distribuído igualmente.

Carlos Nepomuceno, em sua publicação Gestão 3.0 (Editora Campus), faz uma analogia interessante sobre o comportamento das formigas para mostrar como estamos migrando para um novo modelo de gestão do mundo, da vida.

É o lastro que cada um deixa em suas atividades que definirá a melhoria da qualidade de serviços e produtos.

A ideia é que você, em breve, além de deixar estrelinhas para o motorista do Uber e para os livros que você leu no Kindle, também o faça para iniciativas da prefeitura da sua cidade. As formigas fazem isso com feromônios em trilhas que levam a locais onde existe alimento. A quantidade de feromônio presente no caminho indica a credibilidade da descoberta. Feromônio = estrelinhas.

Confiança, portanto, é um item fundamental para a existência da comunidade. Assim como compartilhamento. Afinal, o objetivo é alimentar todos e não colocá-los em uma trilha que se torne uma armadilha. Um ponto fundamental aí passa despercebido: a distribuição de poder.

Como diz Lucy, no filme do francês Luc Besson: “a ignorância gera caos, o conhecimento não”. Parece óbvio que não saber onde há comida é um risco. Mas na maneira como gerimos o mundo atualmente, é o controle, portanto, o poder exercido sobre os recursos, que define como nos relacionamos com ele. É sabido que não faltam recursos. Eles só estão mal distribuídos pela relação de poder que estabelecemos com eles. Essa é a origem do caos. Produzimos comida para 10 bilhões de pessoas com uma população de 7 bilhões, mas os somalis e os bangladeshianos passam fome, por exemplo.

Exigimos cada vez mais acesso aos recursos enquanto que aqueles que têm o poder não querem abrir mão dele. De um lado temos quem resiste para não abrir mão do poder. Do outro, quem resiste por não abrir mão de lutar por acesso.

Encaixe o parágrafo acima na sua timeline na discussão que considerar mais pertinente.

Como podemos iniciar uma transformação gigantesca com o que temos em mãos: compartilhando e consumindo informação e conhecimento. E avaliando eles.

Na escola, aprendemos que notas são boas ou ruins. Estar na média significa não feder e nem cheirar. Odiamos notas (ou estrelinhas) pois não mensuram o nosso esforço para conquistá-las. São apenas índices. O que você precisa fazer para migrar para o novo paradigma de poder inspirado na era do conhecimento é avaliar e dar feedback. Quando pedem que você avalie o serviço, não estão mendigando uma avaliação positiva. O objetivo deve ser sempre beneficiar os empreendedores, os funcionários e os consumidores. Ou seja: a comunidade.

Minha amiga Débora Emm lança um desafio interessante sobre conhecimento e poder em seu TED: conhecimento é poder sob uma perspectiva de posse ou de potência. Você é quem decide o que deve fazer pela sua comunidade de formigas.

Voltando ao MC Marechal: “um dia eu me senti livre/hoje eu quero sentir que eu livro”. Esse é o trecho de uma música dele e, digamos, o manifesto que inspira o Projeto Livrar, conduzido pelo próprio MC: é uma ação de distribuição de livros idealizada pela escritora e produtora cultural Lâmia Brito e pelo músico e produtor musical Mc Marechal. As distribuições acontecem em shows do selo musical #VVAR e nossos objetivos são o fomento a leitura, a descoberta de novos leitores e garantir a visibilidade aos autores desses livros.

Você já sentiu que livrou alguém com algo que compartilhou? Conhecimento é só um exemplo. Ou o começo.