Attraversiamo

Medellín, agosto de 2014.

Talvez exista algo de mágico em estar acordada enquanto o resto da cidade dorme. Algo de mágico ou efeito da aguardiente antioqueña, nunca saberei.

Eu sei que enquanto esperava o metrô com Lucia, em sua última noite/manhã em Medellín, vendo o céu ir mudando de cor e a paisagem adquirindo suas formas normalmente ignoradas por mim em outros horários do dia, me senti extremamente profunda. Apesar da fundeza do pensamento, olhando aqui dentro eu fiquei calada. Passou tanta coisa na cabeça que não tive tempo de tomar nota, tampouco consciência. Entre um e outro degrau, fui mudando algumas coisas de lugar nas estantes mentais e alterando certas prioridades.

Eu tomei decisões e eu sofri e sofro com elas, mas eu aceito. Eu me julgo culpada e eu me sentencio, eu assumo o papel ao qual já me atribuíram certa vez. Do alto do meu pedestal, vejo o meu outro eu lá embaixo e tenho minhas dúvidas. Criei e vivi mentiras e espero um dia poder dizer para mim e para os outros: “isso não existiu, compreenda e supere”. Eu peço desculpas. E eu sigo.

Agora, subindo essa ladeira até em casa, as 5:45, com o peso do fim dos meus dias na cidade, eu percebo que não sou mais a mesma e não posso voltar a ser a pessoa que era antes e nem viver a vida como eu vivia antes, em todos os aspectos possíveis. Cambio sin vuelta. Me senti poderosa virando a esquina da Quinta de mis Abuelitos, dona de mim, da rua e do mundo. Tem uma revolução dentro de mim, violenta e apaziguadora e quem me olha não vê.