Eu sei que o amor é uma coisa boa

Belchior quem disse.

Tem mais ou menos duas semanas que me perguntaram se eu acreditava no amor. Devia ser uma sexta ou sábado no Paulista, por volta de umas 2 da manhã. Lembro porque o bar tava no processo de esvaziar, uma porta já fechada, Claudinha não queria servir mais cerveja.

O segundo turno pairava no ar e a gente ainda conseguia falar sobre outras coisas — mas só se chegava nelas depois de falar sobre a atual conjuntura política brasileira.

“Mas você acredita no amor?”, o Smhir repetiu. Não é a primeira vez que me perguntam isso. Geralmente desconverso, mas devido ao contexto/nível de álcool, fui sincera e admiti que sim.

“Como assim, pô?” e aí teve alguma piada com política. Fiquei com isso na cabeça, não pelo fato do Smhir ter perguntado, mas porque eu sempre achei que era óbvio para todo mundo que eu sou romântica — vide longos dramas ficcionais (ou não) publicados no Medium.

Peter Kavinsky pode colocar a mão no bolso de trás da Lara Jean!!! aaaaaaaaaaa ❤

Inclusive, há alguns meses, mostrei para minha prima mais velha um texto que escrevi aqui. Quando ela terminou de ler, soltou um “você é romântica!”, completamente surpresa. E eu olhei pra ela com uma cara de “porra, claro que eu sou!”. Talvez tenha até dito isso em voz alta. Ela insistiu, disse que nunca pensaria que eu era romântica, fiquei meio ofendida.

E aí essa pergunta no Paulista. Fiquei pensando em como é que eu me mostro pro mundo, sabe? Como será que os ~crushs~ me vêem?

Na real eu acredito que todo mundo tem um pouco de medo de tomar no cu. E aí ficamos todos num eterno dar de ombros, tanto faz atrás de tanto faz. Antes de qualquer coisa: esse não é um daqueles textos “DEMONSTRE SENTIMENTOS!!1!”, não tô falando isso, inclusive odeio. Eu tô falando que entendo — só te julgo se você for cuzão. Don’t you worry about a thing, mama.

Mas como uma pessoa que nunca soube ser blasé nem fingir mistério, tive alguns tropeços durante meus “relacionamentos casuais”. Aliás, posso dizer que me enfiei em várias situações ruins — que eu SABIA que não deveria estar.

Não estou falando de relacionamentos abusivos, porque eles são outra história. Tô falando de lance meia-boca.

De insistir em relações em que claramente uma das partes não se importava da mesma forma. Não tô nem falando de intensidade de amor/fogo no rabo, tô falando de respeito mesmo.

Daquelas em que a pessoa um dia te come e quando te encontra de novo nos lugares finge que não viu. Ou fica te ignorando no meio da rodinha de amigos. Ou então só te manda uns zap meio bosta (quando manda) e você entra numa pilha de “ah, mas será que ele/ela não tem interesse ou só é tímido/a?” com um misto de “mas o jeito que ele/ela olha meus stories é diferente”. A pessoa te trata mal, muitas vezes fazendo você se sentir pequena — e você sabe que não é, mas mesmo assim — e depois vem querendo te beijar como se tivesse tudo certo. Chega a ser uma contradição de termos, reparou?

Quase um ano atrás, eu tinha torcido o pé e o Antonio foi lá em casa me visitar no dia que eu tinha tirado o gesso. Eu estava sonhando com um festival de música na praça em frente a minha casa e a gente desceu lá para ver. Uma hora começamos a falar de pessoas que a gente admirava, e aí de casais que a gente gostava, depois casais que acabaram.

“2017 foi um ano meio bosta pra casais, né?”, eu disse.

“Saturno, né?” — olho pro Antonio rindo. Mentira que ele falou isso — “Pessoal que fala”, rimos.

“Não sei. Sei coisa básica de astrologia, os esteriótipos. Sei que meu signo é bestão, só se fode”, respondi.

“Qual teu signo?”, ele pergunta.

“Peixes. E ascendente em peixes. O crush esbarrou em mim, eu já senti uma coisa”, a gente riu.

“Ascendente é como você se mostra pro mundo, né?”

“É. Então acho que isso quer dizer que eu me mostro como eu sou mesmo”, disse. Pelo menos acredito.

romântica mas nem sempre

Lembrando disso eu entrei em uma viagem de auto-análise e cheguei a conclusão de que, talvez, esses tropeços (românticos, não o que me fez torcer o pé) tenham acontecido por causa da forma com que eu estava me relacionando comigo. Talvez eu não estivesse em um bom lugar, me gostando o suficiente para sair da fase da percepção e seguir com a parte em que saio desses lances medíocres.

E eu curto muito analisar as relações, os encontros. Aquela parada de “a vida é a arte do encontro”, que o Vinicius de Moraes fala. Acho bonito e acho que é isso mesmo. Tem de ser gostoso, tem que agregar, tem que ser prazeroso. Tem que ser uma delícia.

A partir disso eu decidi que vou me permitir fazer o que quiser durante esses encontros, independente de suas profundidades. Na base da consensualidade, óbvio. É difícil para mim não fantasiar sobre o depois (pisciana) e já aceitei esse aspecto da minha personalidade. Então até isso eu tô me permitindo.

Na prática, isso significa que se eu tô lá ficando com o boyzinho e quiser jogar meus braços ao redor do pescoço dele (adoro fazer isso), eu vou jogar meus braços ao redor do pescoço dele. Levanto até um pézinho se der vontade.

Se eu quiser fazer um carinho na mão ou mexer no cabelo, vou fazer isso também. E se ele surtar numa onda “será que ela apaixonou?” eu só vou responder “relaxa que você não é isso tudo” (mesmo que ele seja, porque agir assim já murcha a bola automaticamente).

E se eu quiser mandar uma mensagem para ele no outro dia, vou mandar. Pode ser que ele me responda algo massa (e pode apostar que eu vou estar torcendo que sim), mas também pode responder algo bosta, ou nem responder. E tudo bem, sabe? Só vou ficar morrendo de vergonha durante uns 3 dias como boa introvertida extrovertida que sou — e ele nem vai saber. Talvez lendo isso saiba. Mas tudo bem também. “É como ir de encontro ao outro e deixar bater”. Eu amo essa música.

Eu sei que o amor é uma coisa boa, foi o Belchior quem disse. Então vamos ter em mente que só porque não prevê compromisso, não quer dizer automaticamente que não envolve respeito e carinho, beleza? Não quero buquê de rosas, só faz o seu rolê valer pra mim. Você é tímido? Sei lá, se eu fosse você, já tinha chegado em mim. Me chama pra passear. Dica: não gosto de café.

E amigas: cortem homens tóxicos (corro o risco de ser redundante) e lances meia-boca da vida de vocês. As opções ficam perto de zero? Sim. Mas é aquela expressão:

poucas e boas.