João, 15:12, no ônibus
Ufal-Ipioca, 17h.
Eu e Rebecca estamos saindo da aula pro estágio. Ônibus vazio, só mais umas 6 meninas também saindo da Ufal e 2 meninos de 12/13 anos, sentados no último banco antes da porta.
Já no ponto fora da universidade, entre poucas pessoas, sobe um cara com uma Bíblia na mão: “Sou de um lar de reabilitação blablablá pedindo sua ajuda blablablá porque no versículo tal blablablá ame o próximo”, enfim, todo aquele discurso pra pedir um trocado. Ele saiu pedindo pra galera, passou duas vezes na minha cadeira, “não tenho, desculpe”. Dai um dos meninos abre a mochila e tira um trocado pra ele. Beleza, o cara da Bíblia puxa a cordinha e fica ali na porta esperando pra descer. Nisso o garoto bom-samaritano abre a mochila pra olhar a hora no celular e eis que o cara da Bíblia mete a mão no aparelho e desce do ônibus correndo.
Choque. O menino ficou em choque.
“LEVOU O CELULAR, ELE LEVOU O CELULAR!”
O motorista para o ônibus. Todo mundo perguntando “quem?” “quem levou o celular?”, “aquele cara, o que tava pedindo dinheiro”, “cara que tava citando a Bíblia aqui?” “oxe!”
O menino chorava. Chorava calado, ininterruptamente, um soluço ou outro que atravessava o ritmo das lágrimas. Ai todo mundo solta uma opinião: “você devia ter gritado na hora!”, “era pra você ter dito que ele pegou seu celular”, “por que você não saiu correndo atrás dele?”. O menino abraçou a mochila e continuou chorando.
Todos imergem em conversas em seus bancos sobre como o pivete devia ter reagido ou sobre como eles reagiriam em situação semelhante. Eu falando pra Rebecca que tudo que esse menino não queria ouvir era sobre o que ele devia ou não ter feito.
Bate aquele silêncio, todo mundo meio que assimilando as coisas. Ai o menino solta:
“o meu Face tava aberto, véi…”
