Pensei em te chamar

Ilustração: Boobie Trap

Eu estava no Benedito Bentes — Ponta Verde (Via Gruta) ouvindo música quando lembrei de você pela primeira vez hoje.

Estava viajando, o pensamento longe, bem longe, “mais longe que a Ufal e quase em Recife”, como você diz. Mente distante e pensando em vários nadas, com a música tocando alto nos fones e mesmo assim eu não estou ouvindo nada. Mas ai eu vi uma casa que a calçada da frente era de azulejo com estampa de grama.

Eu odeio azulejo com estampa de grama.

E então eu lembrei que estava com você da primeira vez que vi um azulejo com estampa de grama e a gente riu junto.

Normalmente eu te mandaria uma mensagem e até cheguei a pegar meu celular, mas fingi pra mim mesma que foi só pra mudar a música. E então começou a tocar aquela música do Baiana System e o cantor me pergunta em que cidade eu me encaixo, cidade alta, cidade baixa. Eu ouvi essa música pela primeira vez no seu carro (ou do seu pai) enquanto a gente ia pra praia em Garça Torta.

“Em Maceió uma pergunta dessa não faz sentido”, você disse.

“Verdade! Até existe a parte alta e a parte baixa, mas no geral isso não quer dizer nada”, concordei. Você começou a falar sobre o Farol e Bebedouro, o Centro, Pitanguinha, do processo de ocupação do Vergel e eu absorvi cada palavra com admiração. E então você criticou as construções a beira-mar, como todo mundo faz quando passa pelo Litoral Norte. De um lado da pista dois prédios enormes, rompendo com a paisagem, do outro uma favela sem saneamento básico. “Oceanside, ocean view… que criatividade da porra!”, você debochou. Quis conversar com você sobre isso de novo. Quis conversar.

Depois que te vi no Pub Fiction com a garota, não nos falamos mais. Não respondi seu vago pedido de desculpas pelo Whatsapp e prometi para mim (e para Luisa) que não falaria mais com você. Prometi que “me amaria e me daria o devido valor”. Acho a ideia de me dar ao valor ridícula, clichê, logo não consigo levar a sério. Reconheço a importância e a necessidade, mas não consigo cumprir o exercício.

Abro o Facebook e vou ver se você curtiu minha última postagem. Foi uma música que nunca ouvi quando estávamos juntos, mas que fala exatamente sobre como eu me sinto. Queria que você entendesse. Cheguei a conclusão de que as redes sociais estão ai para não me deixar te esquecer, me acalentando com informações sobre a sua vida sem que eu tenha que te perguntar, ao mesmo tempo que machuca porque me deixa na dependência, querendo mais, e me lembrando que não posso. No fim das contas a mão que alisa é a mesma que bate. No fim das contas não falo com você mas na minha cabeça a gente está se beijando todo dia e fico torcendo para que meus pensamentos toquem você onde as minhas mãos não podem mais. Sinceramente.

Você não curtiu meu post.

Cheguei ao ponto de analisar meus posts no Facebook para ver se você curte, enquanto consciente e esforçadamente não dou nenhum like em nada que você publica ou é marcado. Não sei reagir quando recebo um like seu. A ausência faz com que eu me pergunte se você não viu, não gostou ou está me evitando também. E a presença me queima porque não sei se você gostou mesmo ou se isso é uma espécie de pedido de desculpas disfarçada de interação virtual. Ou porra nenhuma.

Abro minha galeria de fotos e quando percebo já estou deletando todas as fotos que tirei de e com você. Pausa. Solto o ar. Continuo deletando. Parece determinação mas no fundo do meu covarde inconsciente eu sei que as images estão salvas no Drive. Senti a água escorrendo na bochecha antes de associa-la com choro e antes mesmo de terminar essa percepção já a enxuguei com as costas da mão. Era pra ter sido leve, casual, cool, “sem rótulos”. Era pra ser fácil mas chorei no ônibus deletando suas fotos. A relação só é classificada como “fácil” até alguém se fuder. Eu, no caso. E olhando agora sempre deu pra saber.

Puta que pariu, é o meu ponto. Vai descer, vai descer! Saio trombando com as pessoas enquanto corro para a porta do ônibus.

Por que eu tô pensando em você, bicho? Eu só tava andando de ônibus.

Apresso o passo para não chegar atrasada no cinema e também porque essa hora a região fica meio esquisita. Falando assim parece que são 2 da madrugada, mas são só 8 da noite. Chego no cinema e dou de cara com um cartaz com a Marion Cotillard. A gente assistiu uns dois filmes com ela juntos. Pensei em te contar que esse tá passando no Arte Pajuçara. Pensei em te chamar. E se eu te chamasse e você viesse? Não. Duvido.

Uma cena de sexo. Preliminares. Lembro da sensação da sua pele na minha, do nosso suor e aquela coisa que dá. Lembro da gente transando e dessa sensação que me dava. Como se o mundo estivesse parado lá fora e só a gente em movimento, expostos. Parte de mim vai sempre lembrar desse silêncio, dos segundos antes de gozar te olhando. Parte de mim sempre vai lembrar da gente nu.

E se eu te chamar pra me encontrar em algum lugar depois do cinema? Tomar cerveja, comer um sanduíche? Não me permito acovardar e uso o wi-fi do cinema pra abrir o Whatsapp e te enviar uma mensagem. Encaro o ícone da sua foto, uma que eu não conheço, por dois segundos. “Ei! tá em Maceió?”

E então…

Nada.

Dessa vez o nada não foi o silêncio, o famigerado vácuo, a falta de resposta que já estou tão acostumada. A mensagem não chegou. O reloginho não se transformou em check, muito menos duplo check. Minha mensagem nunca chegou à lugar algum, nunca foi lida. Nunca ganhou vida porque você nunca a leu. Deletei a mensagem. Você nunca vai saber.

Dentro do Uber a caminho de casa eu digo pra mim mesma que não vou mais pensar em você. Não vou mais permitir que você domine minha mente, deixar que você se esconda por trás das esquinas do meu cérebro. Você não vai mais aparecer nos momentos mais aleatórios do meu dia. Estou com raiva.

Entro no elevador do meu prédio e lembro da tensão entre a gente antes daquela primeira vez. Aquela súbita vergonha e estranhamento depois de sarrar no carro. Eu deveria estar desapegando. Eu não vou mais pensar em você.

Tomo banho, coloco meu pijama e fico assistindo Grey’s Anatomy. Não pensei em você.

Decido dormir, fecho o notebook e me enrolo no meu lençol. Não pensei em você.

Fico me revirando na cama sem conseguir dormir. Não pensei em você.

Às 3 da manhã, quando abri as pernas e desci a mão por dentro do short do pijama, eu jurei, prometi, que essa não seria pra você. Mas agora é.


Este texto é o último da segunda parte de uma série que estou escrevendo e a última história sob o ponto de vista de Clarice (sim, esse é o nome da garota). Caso você tenha chegado aqui por acaso e não saiba por onde começar, todos os capítulos anteriores estão disponíveis e organizados neste link.