Não suplicar, mas lutar!

Não há porque se culpar, como já foi dito no texto do camarada Jorge sobre o revanchismo de esquerda, a classe trabalhadora por ter sido seduzida pelo nacionalismo fajuto de um personagem medíocre. Antes, devemos olhar para as próprias organizações que se pretendem revolucionárias e perguntarmo-nos sobre o motivo do distanciamento destas da classe trabalhadora.
O capitalismo, e tanto mais o capitalismo em sua fase imperialista e neoliberal, radicalmente atomizante, cria uma massa inerte, indiferente, que não conhece suas necessidades de classe e, portanto, não busca sua liberdade das garras do capital. A falta de organização é a impotência da classe trabalhadora, que não se constitui como classe para-si.
Quem é, na perspectiva Marxista, que tem o dever de propor e lutar para que essa organização aconteça? A vanguarda da classe trabalhadora, já organizada, esta, num partido proletário. Este partido deve lutar pelo desenvolvimento de consciência das massas, para que elas o apoiem ou ao menos não se oponham aos projetos, orientados pela práxis, da vanguarda, que se tornam os seus por ressonarem com todos que são oprimidos.
No Brasil, porém, até o momento vem ocorrendo o oposto disso. A “vanguarda” quer dirigir, é certo, mas deseja fazer revolução para as massas e não com elas. Ou se sucumbe às reivindicações imediatas e desorientadas de um povo idealizado ou se exige mais do que o povo real pode apoiar num dado momento e pressupõe-se que, de forma não menos idealizada, isso será amplamente aplaudido. Não querem as “vanguardas” passarem pelo processo de tomada de consciência com as massas, pois elas creem ter a consciência livre de deformidades.
Todas essas “vanguardas” se afirmam, de uma forma ou de outra, revolucionárias e, mesmo que nem todas se afirmem Marxistas (há sempre uma queda pelo idealismo pluralista entre elas — e mesmo entre as que se afirmam Marxistas, infelizmente), utilizam-se de simbolismos e visões messiânicas das revoluções reais que ocorreram ao redor do mundo no século XX, com destaque óbvio para as revoluções russa, cubana e vietnamita.
Uma coisa que essas “vanguardas” também têm em comum é a autofagia. Algumas vezes vemo-los dizendo que Lênin foi um grande homem e Stalin não compreendia o Marxismo e foi autoritário ou totalitário, outras vezes exaltam Che Guevara como a um Cristo e criticam Fidel e outras ainda discorrem sobre o terror pelo qual passaram os vietnamitas sem nada aprenderem com a luta subsequente que se empreendeu no país pela construção do Estado socialista. Tudo isso conforma-se com o status de salvadores que essas “vanguardas” almejam. O grande homem sempre é aquele que morre ou que é brutalmente agredido. Não se pode passar a edificação, nem mesmo se essa edificação continua a ser atacada.
A nova mártir dessas “vanguardas” é Marielle Franco. Novamente a única luta que defendem é a de retorno à “normalidade”. Querem um bom regime burguês que disfarça sua violência. Querem de volta o regime contra o qual a própria Marielle, muito aptamente, dentro das condições de seu partido, lutou. Querem apenas se defender, quando o momento estratégico que vivemos pede tática ofensiva. Ao dizerem “não” a Bolsonaro, não fazem afirmação, mas pedido, suplicia mesmo. Esperam que algum santo possa os ajudar, mas mesmo o parco santo do pau oco deles anda de mãos atadas.
O fato é que defendem não a classe trabalhadora, mas burgueses e pequeno-burgueses com as sensibilidades feridas pela incapacidade de dissimular a violência mantenedora do presidente. São essas “vanguardas” as mesmas que entregariam Rosa Luxemburgo para ser morta. Reformistas, todas elas, e nenhuma delas tem capacidade para empreender nem mesmo as reformas que querem, uma vez que o capital agonizante deixou de conceder, como sempre o fará.
Nós não somos por fazer suplicias. Não somos pela espera do grande homem. Somos pela luta encarniçada até a vitória. Deixemos que eles se apeguem às suas ideias martirizantes. Nós sabemos que o povo todo sangra sem ver de onde vem o golpe. Nós sabemos que é nosso dever auxiliá-los nessa descoberta. Nós sabemos que é nosso dever convoca-los não a se informarem, pura e simplesmente, mas a usarem da informação para verificarem a correção de sua linha de pensamento e para desenvolverem sua justa raiva em algo além: na busca pela liberdade. Nós sabemos que a luta institucional não cobre senão parte da luta de classes, que o problema da luta institucional é momentâneo, enquanto a luta de classes permanece até que o trabalho supere o capital.
Aqueles que desejam usar as mídias atuais para divulgarem sua mediocridade teórico-prática e desorganizar ainda mais a classe trabalhadora através de idealismos virão abaixo. A própria necessidade de uma atitude consequente quanto a essas mídias dentro dos círculos verdadeiramente revolucionários se assegurará disso.
Áudio:
Comitê Central do Partido Revolucionário 8-Bit
