365 Noites Pra Lá de Bagdá

Imagens de um Iraque nos final dos anos 70.

Final dos anos 70, ainda pairava no ar uma nostalgia dos fatos ocorridos na década, principalmente o movimento hippie e a guerra do Vietnã.

Tinha acabado de completar 18 anos e concluído o curso de técnico em mecânica na ETEFES. Estava ansioso, em busca de liberdade, trabalho e aventuras. Foi quando, de repente, surgiu o convite para trabalhar na construção de uma ferrovia que ligaria Bagdá à Síria.

Não pensei muito na tomada de decisão, era muito ligado à história da região mesopotâmica, lida e relida nos livros didáticos, com imagens que me transgredia à vidas passadas vivenciadas na região, esta que sempre fora influenciada pelo império romano — minha ascendência étnica.

Telegrama recebido e viagem marcada com o destino o deserto do Oriente Médio. O coração estava apertado pois seria um ano longe da família e amigos.

A despedida com alguns amigos foi num final de semana fazendo uma trilha de subsistência no vale do Goiapaba-açu, em Santa Teresa, região totalmente selvagem e sem nenhuma infraestrutura, porém riquíssima em biodiversidade: matas, riachos, orquídeas, pássaros e uma brisa fria influenciada pela altitude.

Esses momentos vividos neste local foram de plena meditação e viagens mentais os quais me transportavam ao passado e me lançavam ao futuro.

A viagem foram dias voando com paradas em alguns países europeus até chegar ao destino. Logo na saída do avião pude sentir o vento quente e seco da noite no deserto — mesmo ainda pensando que poderia ser o calor da turbina da aeronave.

A partir daí comecei a contar os 365 dias que viveria pra lá de Bagdá, em toda plenitude da frase. Foram muitas aventuras junto aos colegas também “Etevianos” os quais se lançaram na missão de construir a maior highway do oriente.

Desde a vida monótona, confinado no trailer do acampamento, a espera do inicio das obras e até as viagens só com um mochila para os vários cantos da Arábia sobrevivendo apenas da mesada em moeda local, recebida da Mendes Junior e com grande ajuda das pulseiras feitas em linhas nas cores verde amarela, até parecia que o movimento hippie ainda procurava continuar em missão em locais ainda não infiltrados pelo movimento.

Tamareiras às margens do rio Eufrates.

O tempo passava e, a cada dia, mais eu explorava a arquitetura e a cultura da região, desde os mercados com especiarias regionais, passando pelo burburinho da língua árabe, a Arak, os Jardins Suspensos da Babilônia, Jerusalém, Istambul, Damasco, Meca e vários outros.

Numa tarde empoeirada de setembro de 1980 o acampamento foi varrido por um Mohamed — o temido furacão — levantando areia e pó, nesta mesma tarde o pior estava por vir: havia estourado a guerra do Irã-Iraque.

O movimento do exército, sirenes, desfiles militares, falta de energia, carros camuflados e muitas bombas… mortes, trincheiras, valas para enterros coletivos, aviões abatidos, explosões em alvos estratégicos tais quais refinarias, aeroportos, portos, pontes e eu só pensava: “será que ferrovia também é”?

Pensei até fazer um bunker no deserto para me abrigar.

O início de uma guerra é realmente assustador. Faz repensar tudo em sua vida e foi aí que vislumbrei o futuro que queria: a paz e beleza do vale do Goiapaba-açu, local que após 25 anos consegui fazer minha morada e onde posso extravasar e recompor minha energia.

Vários planos de fuga foram propostos, varias nacionalidades conseguiram evadir do campo de batalha, mas os brasileiros considerados como valentes e amigos foram convocados por Saddam Hussein a ficar, pois não liberaram os seus passaportes.

Então, o que me restava era rezar para que nenhuma bomba caísse sobre minha cabeça, mesmo convivendo diariamente com vários ataques aéreos.

O tempo passava e nos acostumávamos com a guerra. O pior era o total isolamento da família pois todos os meios de comunicação haviam sido suspensos. Ainda assim eu sabia que os quarenta capixabas já estavam pra chegar.

E são essas e outras tantas histórias que, como numa noite nas Arábias, poderei compartilhar em 365 Noites Pra Lá de Bagdá.

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