O sublime no ridículo

Cringe não é uma palavra que tem tradução muito boa pro português. Numa tradução literal, seria algo como “encolher-se com agonia”, mas essa mesma tradução não faz muito jus ao termo. Eu gosto particularmente de uma: vergonha alheia.
 Acho que o melhor exemplo de cringe humor é a série The Office. A reação ao ver as merdas que Michael Scott (ou David Brent, na versão britânica) faz consigo mesmo para conseguir a aprovação dos outros só pode ser descrita como vergonha alheia. Quando se ri de Michael Scott, se ri ao mesmo tempo dele e com ele. É um riso tanto de pena quanto de desdém. A construção do personagem necessita fundamentalmente de uma empatia de quem vê; caso contrário, Michael Scott não seria nada além de patético. O que gera o cringe é justamente a falha do personagem ao tentar conquistar a empatia alheia - nisso, conquistando a do telespectador. A vida de Michael Scott seria triste não fosse seu carisma imbecil.
 A primeira vez que entendi o poder de ser ridículo foi quando,no segundo ano,me achando bastante feio por algum motivo, resolvi cortar minha franja sozinho. Se eu fiz isso porque me achava feio, mal podia esperar pra ver o resultado da obra na manhã seguinte: ficou uma merda. Não - uma merda fica um bolo quando passa do ponto de assar. Ficou um enorme pedaço de merda. Eu não podia faltar à escola, e isso não resolveria muita coisa, já que a porra da franja não ia crescer de volta em alguns dias. Em meio aos risos da minha família no café da manhã, e um pouco à vontade de morrer, resolvi que a única opção era mesmo ir em frente e mostrar o resultado a todo mundo da escola. Não é como se eu fosse pôr muita coisa em jogo; eu não era um cara nem bonito nem popular, então, eu pensei, o máximo que eu faço é ganhar a mesma falta de atenção de sempre.
 
 Eu não ganhei a mesma falta de atenção de sempre, e qualquer pessoa da escola que tivesse a boa sorte de cruzar comigo se rachava de rir. Primeiro a turma, depois o professor de educação física que só tirou um sarrinho básico. Parecia um pesadelo cinematográfico causado pela minha própria burrice e falta de tato social - hoje em dia eu até acho que merecia pior por ser tão alheio a como a dinâmica adolescente se dava no ensino médio, coisa que meus amigos me explicaram quinhentas mil vezes, mas meu espírito romântico virjão relutava em aceitar - mas eu tinha que me virar. 
 Por causa da falta de tato supracitada, o único jeito que eu conseguia construir amizades e/ou atenção era sendo o engraçadinho: eu era o cara que aceitava qualquer merda que me desafiassem a fazer, era o alívio cômico das aulas, etc… O pacote completo do Zé Auto-depreciativo-que-se-esconde-por-trás-de-humor-pra-conseguir-aceitação.
 Mas até então eu não tinha entendido como ser humilhado funcionava, ou ser um merda funcionava. Tudo que eu fazia era pra escapar da ideia de qualquer uma dessas coisas. Eu não queria ser um merda. Eu não queria ser humilhado. Eu queria ser adorado.
 
Azar o meu. Eu corri pro banheiro e fiquei desesperado, sem ideia nenhuma do que fazer. Eu queria chorar, ou pelo menos sumir dali. Passarinho que come pedra sabe o cu que tem, como minha vó sempre dizia (isso é verídico, não é pelo bem do texto). Nessa hora eu ou enlarguei o cu, ou entendi melhor seu tamanho: com o Pilot que eu carregava no estojo pra pichar as paredes, eu me risquei um bigode de caminhoneiro aposentado e resolvi entender que eu parecia muito o Freddy Mercury na época dos dois primeiros álbuns. 
 O resultado foi que agora as pessoas se mijavam de rir ao invés de só se rachar. Era impossível que alguém achasse que aquele conjunto de vacilos fosse qualquer coisa que não proposital. Definitivamente não era. Mas agora pelo menos as pessoas riam comigo. Eu definitivamente estava no controle do ridículo: eu era minha própria piada. Entenda como quiser, mas pela primeira vez eu senti que fazia aquilo com comando.
 
Depois disso, eu não parei. Eu sempre pensava em jeitos de ser mais ridículo, de fazer as pessoas rirem comigo mais e mais, ao invés de rirem de mim. Eu conseguia, na maioria das vezes. Muita gente não gostava de mim. Mas todo mundo ria. 
 Na época eu não conseguiria ver o cringe. De dia a piada, de noite o punheteiro chorão. Eu sempre achei que, no fim, quem ria por último era eu. De fato, hoje em dia eu acabo rindo, como rio do Michael Scott, e acho que ninguém mais ri daquelas “piadas”. Eu via bastante Woody Allen e Monty Python pra achar que entendia bastante de humor. Era auto-depreciativo. Quem não ria não entendia. Eu não era patético, era um gênio.

Demoraria algum tempo até eu entender quem eu era naquela época. Acho que o jeito como eu lido com as pessoas ao meu redor tem muito a ver com e deve muito a essa experiência. Penso que toda conquista que tenho sobre mim mesmo tem a ver com dar um passo adiante na corda bamba que é caminhar no ridículo. O meu ridículo. O ridículo que eu vejo nos outros. O ridículo que eu vejo em mim. Esse eu de agora talvez não precise mais desses artifícios adolescentes, mas às vezes quando vejo meu reflexo, ainda vejo um bigode riscado e uma franja horrível. Ainda sinto calafrios de pensar que alguém ri de mim sem que eu, de certo modo, permita. Eu sou, em mim mesmo, ridículo. Tudo que sai de mim é.
 Eu não tenho mais coragem de cortar a própria franja e, graças a Deus, consigo crescer um bigode (inclusive já deixei ele espetacularmente cringey) sem precisar me preocupar se ele combina com ela de um jeito que o Freddy Mercury combinaria. Mas acho que, mais importante, eu consigo ver o quão patético era. O quão patético eu sou. Não existe ridículo sublime. Ou se é, ou não. Hoje eu assustei alguém por falar de punheta com meus amigos um pouco alto demais. Não tem nada de genial nisso. Eu não sou melhor que o Michael Scott. Mas acho que agora eu entendo a sutileza da coisa. Não se trata de que não riam de mim - isso é inevitável. Se trata de conseguir rir de mim. Acho que esse é o sublime no ridículo. Se você me vir por aí, não pense que eu me acho muito engraçado fazendo essas merdas - isso é patético! Mas que eu rio, eu rio. Eu acabo sentindo vergonha alheia de mim mesmo.
 Acho que eu consegui criar uma certa empatia comigo.