O Decreto dos Novos Reis — Prólogo
A noite avançava com a cavalaria, floresta adentro, neve espessa até os joelhos. Escombros de uma guerra esquecida faziam-se lembrar ao seu redor, por todo o trajeto desde o Castelo das Cinzas até a entrada da Clareira da Primeira Evocação. Os cavaleiros que vestem vermelho curvam-se apenas para a linhagem dos humanos; essa noite eles escoltam o caixão de mais um rei cantaire que tentara tomar o trono espelhado.
O líder deles, mais à frente, ergueu uma das mãos e pôs a outra na guarda da espada. Seu cavalo obedeceu a ordem de parar, seguido de perto por seus soldados.
- Alto lá! — gritou Gil, descendo da montaria, capa esvoaçando em meio à neve que caía.
- O que você vê, meu capitão? — perguntou Bertoldo, debruçado sobre o pescoço do cavalo, fingindo interesse, após dias de cavalgada e de muitas interrupções.
- Façam silêncio! Estou certo de que ouvi um baque nestas matas, como se algo tivesse acabado de encontrar o chão — respondeu Gil.
Todos fizeram silêncio, menos Bertoldo.
- Será outro cervo? Esta região é selvagem, meu capitão. Se pararmos a cada barulho de gravetos rachando ou pedras despencando, não chegaremos à Cantaserra esta semana — fez uma breve pausa, mas não recebeu resposta. — Que tal pouparmos nossa energia até que alcancem nossos ouvidos o clangor de espadas ou o canto inebriante de uma serigueta?
- Não existem mais seriguetas nesta região — gritou Cortês, lá de trás.
- É claro que existem. Eu me encontrava com uma recentemente — retrucou Horácio.
- Uma serigueta? Da Primeira Evocação? Uma criatura deslumbrante, como a mais bela das mulheres humanas, porém irremediávelmente cega, e que atrai viajantes ao seu ninho de amor, para então devorar-lhes os olhos com o sangue ainda pulsante? Não penso que teria sobrevivido a tal encontro, se fosse verdade — gritou Cortês.
- Horácio sequer conhece esta região. Passou a viagem toda me perguntando se estávamos no rumo certo — disse Bertoldo.
- É que já faz algum tempo — respondeu Horácio. — Afinal, o que o senhor ouviu desta vez, meu capitão?
A voz de Horácio ainda ecoava na clareira quando avistaram a criatura emergir das moitas que ladeavam a estrada. Não tinha mais do que um metro de altura, com dois chifres avermelhados despontando nas costas. Arrastava-se na direção deles apertando um corte na garganta, que espirrava um sangue borbulhante, derretendo tudo o que tocava.
Os cavalos relinchavam e bufavam, empinando as patas dianteiras e tentando virar na direção oposta. Cortês e Bertoldo sacaram suas espadas imediatamente, seu aço reluzindo sob a luz da lua. Horácio segurava o capuz na cabeça para não perdê-lo com o movimento brusco da montaria; estava impressionado demais para esboçar qualquer reação.
- Afaste-se, criatura! — gritou Gil, apontando sua lâmina para o pequeno monstro. — Buscamos passagem por estas terras, tão somente. Não havemos de ter assunto com as feiticeiras, nem desejamos seu mal. Portanto lhe ordeno que recue imediatamente, ou seremos obrigados a pôr um fim aos seus dias de emboscadas.
A criatura cambaleou mais alguns passos e depois despencou, com a mão estendida para Gil. Seus olhos tornaram-se negros como a escuridão de uma madrugada sem estrelas.
Bertoldo e Cortês aproximaram-se, formando um semicírculo ao redor dela.
- Ela está morta? — um deles perguntou.
Gil aproximou sua lanterna furta-fogo do rosto da aberração, cuidadosamente.
- Tem o semblante de uma criança humana — constatou espantado. — Não fossem as asas que brotam de suas costas e este rasgo na garanta, que é na verdade uma fenda por onde respira, eu poderia confundí-lo com uma. E ainda respira.
O ar tornou-se pesado. Todos respiravam com dificuldade entre os flocos de neve que caíam sem cessar. Súbitamente a lua cheia foi encoberta por uma nuvem, e só era possível enxergar o que a lamparina iluminava.
- O que faremos com ele? — perguntou Horácio, reaproximando-se do grupo, agora que o susto maior havia passado.
- O pobre demônio não representa perigo. Digo que o deixemos atirado no meio da estrada, ao capricho dos animais da floresta — respondeu Bertoldo.
Gil virou-se para Bertoldo com olhos penetrantes.
- Desde quando está no comando, Bert? Eu vos digo o que será feito dele. Já estou farto de ter esses monstros assombrando nosso reino impunemente. Fodam-se as Feiticeiras e seus experimentos. Este aqui sentirá o frio do meu aço.
Ao brandir sua espada, uma ponta de lança atravessou a nuca do capitão, saindo pela sua boca e partindo-lhe os dentes da frente. Os joelhos afundaram sobre a neve espessa e uma última lufada de ar escapou de seu peito. O sangue de Gil atiçou o cavalo de Horácio, que deu um pinote violento e o jogou ao chão.
Olhando ao redor, viram-se cercados por crias da floresta, camufladas na vegetação com suas peles esverdeadas, zagaias em mão. Uma exuberante cantaire de rosto angular e um longo manto verde surgiu, entre um mar de folhas que lhe abriam espaço, e decretou:
- Eu sou Adria Alianar, a Terceira Feiticeira e Protetora da Clareira da Primeira Evocação, e não permitirei que criaturas inocentes sejam atacadas neste santuário — Adria virou-se para Cortês e o encarou. — Eu vejo maldade em seus olhos, homem das cinzas.
- Morra, abominação! — berrou Cortês, disparando a todo galope em direção à feiticeira, sua espada em riste cortando o ar.
Uma chuva de lanças formou um arco sobre sua cabeça, forçando-o a atirar-se para o lado num salto e rolar no chão, antes de pular novamente com um golpe em linha reta.
Prestes a ser atingida, Adria transformou-se em um enorme urso pardo, emanando uma cintilante aura dourada. Dando uma patada, atirou a espada de Cortês para longe, e dando outra partiu seu peito ao meio.
Com um rugido ensurdecedor, Adria retornou à sua forma física original, e Horácio e Bert ajoelharam-se de imediato, baixando suas cabeças.
- Tenha misericórdia de nós, grande feiticeira — implorou Bert.
- Levantem suas cabeças. Deixem-me ver seus olhos — ordenou Adria. — Eu conheço um de vocês, não conheço?
Uma das crias deu um passo à frente das outras.
- Sim, Mãe da Conjunção. Horácio é o seu nome. Costumava visitar a clareira em noites frias como esta, mas sempre viajava sozinho. Nos encontrávamos sob a fina luz do luar para aquecermos nossas almas com a companhia um do outro. Ele não é perverso como os outros.
- Então ele receberá meu perdão, filha minha, contanto que o homem parta imediatamente e jamais retorne — disse a protetora.
Adria aproximou-se graciosamente da criaturinha caída no meio da estrada e a envolveu com os braços, levantando-a na altura do peito.
- Esta criança fora atacada por Eldarão quando revoltou-se contra seus criadores. Nos foi trazida por ele mesmo aqui na floresta, porque somente entre as crias da evocação ela teria alguma chance de sobreviver. Eldarão se arrependeu — Adria tocou a garganta da criança e o corte fechou-se em uma cicatriz. — Volte para o Castelo das Cinzas, Horácio, o Galante, e faça meu aviso ser sabido: qualquer cavaleiro que for pego atravessando a passagem ancestral será alvo da minha ira.
- O que faremos com o outro? — uma das crias apontava para Bertoldo.
- Arranque sua espada e armadura, e abandone-o à própria sorte — respondeu Adria. — Os animais selvagens terão um inusitado banquete esta noite.
