Sexo Tosco, Sexo Sujo: Uma Tragicomédia Beijo-Grega
CENA I
O casal em casa.
LIMPÍNEA — Nêgo. Ô, nêgo!
TORCILDO — Sai demônio!
LIMPÍNEA — Olha pra cá um pouquinho, vai. Só um pouquinho, eu tô pedindo. Hoje é dia de maldade, nêgo.
TORCILDO — Te arrasta pro inferno. Vai varrer o chão aí, ô atentada.
LIMPÍNEA — O único pau que eu ainda pego é nesse cabo de vassoura. O que eu fiz pra merecer isso? Eu to aqui, toda pelo crime. Tu não sente mais tesão por mim, admite que fica menos feio pra ti.
TORCILDO — Só percebeu isso agora?
LIMPÍNEA — Não, já faz tempo. Fizeram macumba. É a pomba-gira sete saia.
TORCILDO — Como é que tu sabe?
LIMPÍNEA — O Pai Rodrigues me falou.
TORCILDO — Mas então tem que se livrar disso logo, como é que faz?
LIMPÍNEA — Com uma noite de sexo violento.
TORCILDO — Passa o meu atz pra ela que eu resolvo.
LIMPÍNEA — Tem que ser comigo! No meio do mato, debaixo da lua cheia.
TORCILDO — Mas é o inferno. Vamo resolver essa situação então. Assim como tá não dá pra ficar, eu não tenho mais paz. Toda noite tu me aparece com o rabo quente, mas será o demônio? Cade esse mato?
LIMPÍNEA — Tem que pedir auxílio da bruxa primeiro.
TORCILDO — Que bruxa, tchê?
LIMPÍNEA — Tú é um ignorante na arte do oculto, Torcildo. A bruxa vai te dar um chá pra tomá e a gente vai num motel com teto solá.
TORCILDO — Eu não gosto de mexer com essas coisa, Limpínea. Tu sabe que eu me cago de medo.
LIMPÍNEA — Medo de quê?
TORCILDO — Da gente não sê mais o mesmo.
LIMPÍNEA — Eu e tu?
TORCILDO — Vós e trós.
LIMPÍNEA — Sois.
TORCILDO — Nóis.
LIMPÍNEA — Sóis.
TORCILDO — Uóis.
[Murmuram sílabas que se rimam]
NARRADOR — Esta é a história de um casal admirável em busca de um prazer esquecido. Vocês conhecerão Torcildo Maximus e sua companheira Limpínea Aeterna. Esta será a última noite deles, mas vocês ainda não sabem disso. Eu sei porque conheço a história. Tudo o que verão aconteceu numa noite de verão.
TORCILDO — A visita faremos! Já está tudo acertado. Com um só bom cavalo iremos, e esta noite mesmo chegaremos.
LIMPÍNEA — Receio que de lá jamais tornaremos.
TORCILDO — Bobagem insana. Retire a preocupação do peito, minha donzela, seu príncipe conhece esta estrada e nunca virou na encruzilhada errada. É tudo uma questão de saber improvisar.
[Entram as Bruxas.]
Quem é que… Quer dizer, quem sois vós, que aproxima-se assim, tão sorrateiramente, como o ladino da noite que não deseja ser avistado por olhos atentos? Vamos, diga-me de imediato, pois minha adaga está amolada e anseia em conhecer você por dentro.
PRIMEIRA BRUXA — Admita-o.
TORCILDO — Perdão?
SEGUNDA BRUXA — Sua maldição.
TORCILDO — Lhe cortarei feito um…
TERCEIRA BRUXA — [apodera-se da adaga] O objeto de vossa atenção.
LIMPÍNEA — Quando deitamos pelados, nossos corpos atrelados, eu já não sinto mais nada, e sei que ele também não.
TORCILDO — Me falta tesão.
PRIMEIRA BRUXA — Que horror!
SEGUNDA BRUXA — Passe longe!
TODAS — Lhe falta imaginação!
[As Bruxas castram Torcildo]
Fim da cena I.
