Sexo Tosco, Sexo Sujo: Uma Tragicomédia Beijo-Grega

Guilherme Premonsa
Jul 28, 2017 · 3 min read

CENA I

O casal em casa.

LIMPÍNEA — Nêgo. Ô, nêgo!

TORCILDO — Sai demônio!

LIMPÍNEA — Olha pra cá um pouquinho, vai. Só um pouquinho, eu tô pedindo. Hoje é dia de maldade, nêgo.

TORCILDO — Te arrasta pro inferno. Vai varrer o chão aí, ô atentada.

LIMPÍNEA — O único pau que eu ainda pego é nesse cabo de vassoura. O que eu fiz pra merecer isso? Eu to aqui, toda pelo crime. Tu não sente mais tesão por mim, admite que fica menos feio pra ti.

TORCILDO — Só percebeu isso agora?

LIMPÍNEA — Não, já faz tempo. Fizeram macumba. É a pomba-gira sete saia.

TORCILDO — Como é que tu sabe?

LIMPÍNEA — O Pai Rodrigues me falou.

TORCILDO — Mas então tem que se livrar disso logo, como é que faz?

LIMPÍNEA — Com uma noite de sexo violento.

TORCILDO — Passa o meu atz pra ela que eu resolvo.

LIMPÍNEA — Tem que ser comigo! No meio do mato, debaixo da lua cheia.

TORCILDO — Mas é o inferno. Vamo resolver essa situação então. Assim como tá não dá pra ficar, eu não tenho mais paz. Toda noite tu me aparece com o rabo quente, mas será o demônio? Cade esse mato?

LIMPÍNEA — Tem que pedir auxílio da bruxa primeiro.

TORCILDO — Que bruxa, tchê?

LIMPÍNEA — Tú é um ignorante na arte do oculto, Torcildo. A bruxa vai te dar um chá pra tomá e a gente vai num motel com teto solá.

TORCILDO — Eu não gosto de mexer com essas coisa, Limpínea. Tu sabe que eu me cago de medo.

LIMPÍNEA — Medo de quê?

TORCILDO — Da gente não mais o mesmo.

LIMPÍNEA — Eu e tu?

TORCILDO — Vós e trós.

LIMPÍNEA — Sois.

TORCILDO — Nóis.

LIMPÍNEA — Sóis.

TORCILDO — Uóis.

[Murmuram sílabas que se rimam]

NARRADOR — Esta é a história de um casal admirável em busca de um prazer esquecido. Vocês conhecerão Torcildo Maximus e sua companheira Limpínea Aeterna. Esta será a última noite deles, mas vocês ainda não sabem disso. Eu sei porque conheço a história. Tudo o que verão aconteceu numa noite de verão.

TORCILDO — A visita faremos! Já está tudo acertado. Com um só bom cavalo iremos, e esta noite mesmo chegaremos.

LIMPÍNEA — Receio que de lá jamais tornaremos.

TORCILDO — Bobagem insana. Retire a preocupação do peito, minha donzela, seu príncipe conhece esta estrada e nunca virou na encruzilhada errada. É tudo uma questão de saber improvisar.

[Entram as Bruxas.]

Quem é que… Quer dizer, quem sois vós, que aproxima-se assim, tão sorrateiramente, como o ladino da noite que não deseja ser avistado por olhos atentos? Vamos, diga-me de imediato, pois minha adaga está amolada e anseia em conhecer você por dentro.

PRIMEIRA BRUXA — Admita-o.

TORCILDO — Perdão?

SEGUNDA BRUXA — Sua maldição.

TORCILDO — Lhe cortarei feito um…

TERCEIRA BRUXA — [apodera-se da adaga] O objeto de vossa atenção.

LIMPÍNEA — Quando deitamos pelados, nossos corpos atrelados, eu já não sinto mais nada, e sei que ele também não.

TORCILDO — Me falta tesão.

PRIMEIRA BRUXA — Que horror!

SEGUNDA BRUXA — Passe longe!

TODAS — Lhe falta imaginação!

[As Bruxas castram Torcildo]

Fim da cena I.

    Guilherme Premonsa

    Written by

    O parafuso que gira e não aperta.