Porque sim

Cinquenta Tons de Cinza e Beleza Americana


Se houveram dois filmes que me fizeram escolher a minha carreira, eles foram Beleza Americana e Cinquenta Tons de Cinza.

Eu vi Beleza Americana pela primeira vez quando era adolescente. Ele saiu quando eu tinha cinco anos, então não tive a sorte de vê-lo no cinema. Então eu peguei o DVD numa locadora, pasmem, e assisti — como de costume, mas sem autodepreciação — sozinho.

Claro que o primeiro nível no qual o filme me afetou foi emocional. Eu me identifiquei com Lester Brunham, com Jane Bunham, Ricky Fitts, Angela Hayes, Carolyn Burnham, porque eu sabia como eles se sentiam. Eu era adolescente, eu sentia tudo que todo mundo ja sentiu multiplicado por puberdade.

Depois do emocional veio o intelectual. A fotografia impecável, o roteiro brilhante, a trilha sonora comicamente tocante e a direção mais elegante que já tinha visto. Mais tarde descobriria que eram os trabalhos de, respectivamente, Conrad Hall, Alan Ball, Thomas Newton e Sam Mendes, cujas carreiras passaria a vida a perseguir. E as atuações, as melhores atuações das carreiras de Kevin Spacey e de Annette Bening, e uma definição das carreiras de Wes Bentley e Thora Birch.

Esse filme me mostrou o que cinema pode fazer, e o que deve fazer, em seu melhor estado, quando o talento e dedicação de todos os envolvidos faz tudo se encaixar como se por acaso. Depois disso, eu sabia que queria fazer cinema.

Passei o ano seguinte com a meta de ver um filme por dia, o que se provou mais difícil que esperava, e procurando falar de cinema com todos que suportassem ouvir.

Mas — conforme eu conhecia mais cinéfilos, descobria mais sobre o processo cinematográfico e lutava para ver todos os filmes que me foram recomendados — um câncer constantemente visitava o meu pensamento: Por que eu? É uma indústria no mínimo difícil de se entrar, e há muitas pessoas que viram inúmeros filmes dos quais ainda não ouvi falar, todos parecem ser muito mais inteligentes que eu, por que eu deveria dedicar a minha vida a isso, quando eles se “contentaram” em ser médicos, advogados ou funcionários públicos?

Por muito tempo eu usava essa famosa citação de Quentin Tarantino: “Eu amo filmes demais para só assisti-los. Eu tenho que fazer parte deles.” Eu nunca entendi completamente o que ele quis dizer, mas servia como uma boa desculpa, para os outros e especialmente para mim mesmo.


Então 2014 chegou e, com ele, uma adaptação literária que deixou várias amigas alvoroçadas: Cinquenta Tons de Cinza, baseado em um fanfiction erótico da série Crepúsculo. Foi graças a uma dessas amigas que eu tive a sorte — diferentemente de Beleza Americana — de vê-lo no cinema. Lembro-me vividamente.

Eu nunca havia visto o cinema tão cheio. A fila ia da porta da sala até a esquina mais próxima. Dentro da sala, nos sentamos na primeira fileira por falta de planejamento. Não havia acento vazio, inclusive em um havia uma mulher e uma criança. O demográfico pegava duas faixas: de 16 a 24 anos, e de 39 a 52 anos. Todas mulheres.

O filme começou e foi uma merda.

Queria ressaltar, contudo, uma cena em específico: a introdução do personagem de Christian Grey. Quem, aliás, já fora apresentado antes, tamanha a falta de consideração do roteirista.

Anastasia Steel está entrevistando Christian Grey — sim, o trauma me fez lembrar também dos nomes dos personagens — em seu escritório com um pouco de tensão sexual. Ótima intenção. Funcionaria muito bem nas mãos de alguém mais interessado ou talentoso.

Mas a cena é filmada como um diálogo qualquer, sem cuidado algum em externalizar os sentimentos dos personagens, sem transmitir o que poderia haver nas entrelinhas das falas, deixando na tela somente um diálogo ruim. “Por que eles não tão fazendo nada com essa câmera? Use mais closes! Mostre detalhes dos olhos dela nele, da textura das mãos dele nos papeis; talvez até não mostrar o rosto dele até o final de cena, sei lá, nos ajude a sentir o que ela está sentindo!”

Ta no clima pra objetos fálicos?

Mas teve um shot. Deve ter durado no máximo 30 frames. Tenho raiva do quão bem lembro disso. Anastasia está sentada numa cadeira à frente da mesa, e Christian está na sua frente, meio que sentado na mesa.

Lembrando que a sala estava tão cheia de hormônios que tiveram que afastar cães no começo da noite.

Algum dos dois fala uma coisa excessivamente provocante, e cortamos para um detalhe de uma das mãos de Christian, que segura a mesa, a apertando um pouco mais forte. Nesse momento eu senti toda a platéia. Houve um som, espontâneo e orgânico, da garganta de todas as pessoas naquela sala, como um inspirar tenso, um contrair de músculos, seguido por leves risos constrangidos.

Aquele shot me deixou ver o que esse filme poderia ter sido. Que você passe meia hora no céu, antes que o Diabo saiba que você está morto. Naquele momento eu senti a tragédia que o fora fracasso desse filme. Como no Vórtex da Perspectiva Total. Milhões de pessoas leram este livro, e eles também merecem receber o máximo que o cinema pode lhes dar. Quando se tem uma audiência deste tamanho, não se pode desperdiçá-la. Milhões de pessoas foram ao cinema naquele dia — no Brasil, foi a maior estréia da história — , querendo se emocionar, se excitar, sentir, prontas e abertas às possibilidades daquela tela branca.

E isso, admito, me deixou com raiva. Raiva e indignação, desse pecado que é o maltratar do público cinematográfico e da tragédia que é o desperdício dessas almas entregues ao cinema.

Nesse momento eu sabia que precisava fazer cinema. Eu não podia deixar isso acontecer. Era minha responsabilidade como cidadão elevar o estado atual da indústria cinematográfica o mais alto que meus braços conseguissem. Cada roda dentada tem que ter uma função.

Agora eu entendia o que Quentin quis dizer. Eu também amo o cinema demais. Demais para somente assistir-lo tomar o seu curso. Ele é o meu filho, e eu vou mimá-lo até não poder mais.


Did I do something to offend you?
As a matter of fact, you did. You occupied a theater witch might have otherwise been used on something worthwhile.

Birdman, 2014