Eu queria segurar suas lágrimas.

Pus minha mão em seu coração pra acalenta-lo, como você fazia ao me trazer chá e cobertor nas tardes frias em que passamos juntos. Eu dormi ao som da chuva na noite em que pude ler a carta da sua despedida. Eu enlouqueci ao imaginar que sua mão não seguraria mais a minha quando eu descesse do ônibus, seguindo por aquela rua torta e escura sem conseguir enxergar mais os tijolos amarelos que nos levaria a cidade das esmeraldas. Eu dancei o blues que você deixou na vitrola, tão doce e melancólico. Imaginei no dia que me colocou contra a parede para apreciar o sabor dos seus lábios regados a vinho e saudades, sufocando meu peito e me fazendo derreter em seus braços. Eu guardei com carinho mais um dos seus presentes, aquele disco que encontrou numa feira próxima do trabalho e que igual a ele não encontraria. Ainda sinto sua voz sussurrar no meu ouvido um pedaço da letra que cantava em meio as risadas causadas pelo álcool no nosso primeiro jantar na casa nova. Ao me deparar com todas essas suas marcas em mim, vejo que me tornei mais seu do que eu imaginava. E o pior, é que gosto de quem me tornei, assim tão seu mas tão somente de mim, já que hoje você não está mais aqui pra me pertencer. Ainda posso ver rolar pelo seu rosto as lágrimas que tanto pensei em segurar. Acho que a única coisa que eu não tenho de você mais são elas, tão salgadas e livres, tão pesadas e vivas. Agora, era você que deveria segurar as minhas.

K.

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