Metamorfose

Engraçado como o brilho da lua entra pelo quarto numa noite tão quente que até acredito que o verão enfim chegou. Engraçado vê-la fazer reflexos e dançar sorrateira como sombra dos ferros da janela e pinta a parede manchada de suor a paleta de cores monocromáticas da alma do jovem poeta, destinado a acreditar que nunca mais conseguiria escrever e pausar sua fala é como pausar uma respiração que se acelera por conta da temperatura do corpo e do ventilador, que esbraveja um ar abafado e torto em seu corpo nu de roupa e de integridade, tal como uma flor desnuda numa tempestade de areia, tão pesada quanto a que se encontra nas tão belas praias da cidade mais bonita do mundo e que nos faz convite a correr em sua orla e as palavras saltam os buracos e paralelepípedos em busca de uma pista sem trânsito de dor e veículos, tão grandes e tão somente feitos para seguir rodando, parando, respeitando o sinal vermelho como o sol que desperta num sábado de novembro as dores das juntas com o cheiro de café e água sanitária, tão ardentes como as gotas de suor brotando na testa e nas têmporas um batuque de uma escola de samba faz um carnaval na mente de quem bateu os dois pés dizendo que nunca iria escrever e escrever eram águas passadas, tal qual o riacho que nunca mais mergulhou ou a comida que nunca mais provou pelo simples fato de ser outro e não mais o apreciador da vida, da mensagem particular de solidariedade e da destreza de se tornar um aprendiz de si mesmo. Agora mais calmo, ainda recebe o brilho da lua em seu rosto pra ver que sua versão dois ponto zero estava a se construir como uma borboleta em seu momento de crise no casulo. Metamorfose.

K.