
Um Natal Mágico
O ano era 1987, eu tinha seis anos, o Natal estava chegando e minha cartinha já havia sido “enviada" para o Papai Noel. A expectativa era grande e cada vez que pensava na minha futura bike, meus olhos brilhavam. Naquela época a cultura do Noel era muito grande e as crianças eram bem mais inocentes do que as dos dias atuais. Eu era uma menininha que amava Xuxa, Ursinhos Carinhosos, bonecas falantes e o mundo da Barbie. Brincava de casinha no quintal (e levava broncas da minha avó pelas plantas que pegava pra fazer comidinhas de bonecas), corria na rua brincando de pega-pega e chorava com aquele antisséptico que ardia pra caramba.
E, é claro que um presente vindo do Papai Noel fazia parte dos meus sonhos de criança.
A expectativa crescia e era ano de passar o Natal com meu pai no sítio do meu avô. Nem imaginava o quanto esse ano seria marcante.
Naquele ano meu avô cortou um pinheiro de verdade do próprio sítio. Tinha uns três metros de altura e foi decorado por várias pessoas. A sala tinha pé direito alto e a árvore quase encostava no teto. Foi uma festa enorme, com muita música, amigos dançando e brincando entre si, risos, luzes, cores. Lembro de ver tudo de baixo, pequena, correndo entre pernas e pessoas apertando minhas bochechas. Alguns me pegavam no colo pra dançar, me abraçar, beijar e, como filha e neta única (ainda), era muito querida e mimada por todos.
Quase meia noite minha tia veio conversar comigo:
“_ Pri, está na hora de dormir. Vamos lá colocar seu sapatinho na janela."
E eu, óbvio que não queria deitar, a brincadeira estava no auge. E colocar o sapato na janela? Minha tia era doida ou o quê?
Então ela me explicou que eu deveria dormir, pois o Papai Noel só visitava as casas das crianças que já estivessem dormindo e que o sapatinho na janela era um meio de avisar o bom velhinho que ali havia uma menininha “roncando".
Convencida, fui deitar. Era melhor garantir uma visita, não é?!
Por volta de 6h da manhã, enquanto todos dormiam, levantei sorrateiramente e fui à sala da árvore dar uma olhadinha. Comecei a descer os degraus da pequena escada pra chegar até lá e, no penúltimo degrau, mrus lábios se abriram em um sorriso de orelha à orelha. Elas estava ali. A minha caloizinha azul, com rodinhas e cestinha!
Foi muito mágico. Você tem ideia do que se passou na minha cabeça naquele momento? Nem eu tenho ideia!
Lembro que voltei correndo para o quarto e chamei meu pai (que tinha acabado de deitar), chamei minha tia e acordei quase a casa toda, tamanha a minha felicidade.
Fomos até a árvore, a bicicleta estava montadinha embaixo dela, linda. Curiosa e cética como sou, vieram os questionamentos: “Como o Papai Noel entrou aqui se a casa está fechada?”, “Como ele montou a bicicleta?”, “Como ele saiu?”.
Entre muitas explicações que incluíam pó mágico de encolhimento e práticas de engenharia de produção, deixei tudo pra lá, peguei minha bicicleta dos sonhos e saí pedalando pelos corredores do sítio, sob olhares de encantamento de amigos e familiares, pasmos com minha alegria e crença, que encheram todos os corações ali presentes.
Depois de algum tempo fiquei sabendo que meu pai havia se esforçado pra comprar aquela bicicleta e aprendi que Papai Noel não existia. Mas a magia do faz-de-conta nunca saiu da minha lembrança. E, pra falar a verdade, acho que permanece aqui dentro até hoje…
