Sobre hipersexualização do corpo negro.

Pele preta, quadril largo, boca carnuda, perna grossa
Quem nunca quis aquela pretinha gostosa, colega de trabalho ou de escola?
Quem nunca desejou a globeleza com aquelas curvas fartas?
Quem nunca achou aquela preta boa de cama mas que não era digna de aparecer contigo de mãos dadas?

Isso se chama hipersexualização, sabia?
Engraçado, né, como o respeito diminui quanto mais se tem melanina?
Minha cor preta diz que eu rebolo mais gostoso, que eu sei satisfazer um homem
Mas diz também que eu sou um animal sem sentimentos, que só sirvo pra foder
Que não sou digna nem de um nome
Sou sempre a preta, a pretinha, a nega a neguinha
Não leva a mal, não, eu gosto que me chamem assim
Mas tem que ter a pele preta, que nem a minha.

Dizem que o amor não tem cor, mas eu acho que ele tem pelo menos preferência
Por uma pele alvinha, cabelos loiros, olhos azuis, sabe?, “boa aparência”
Essa é pra apresentar aos pais, postar foto no facebook com uma música do Jorge e Matheus
Eu prefiro Rincon Sapiência, Zimba Groove, Erykah Badu, junto com alguém que saiba quem é Zélia Amador de Deus
De novo, não levem a mal, não…
Mas se na fila pro meu coração tiver um branquelo, só pego depois que acabarem os negão.

E não é por nada, não, é só porque macho branco nunca sofreu uma opressão
Pra eles é mimimi, exagero, tentativa de manipulação
Como se ser preterida em relações fosse gostoso e eu fizesse por diversão
Como se eu gostasse de ter meu corpo lido como objeto sexual de marmanjo
Como depósito de esperma de macho cuzão

Aqui é tudo gostoso, bebê, tudo lindo mas tem que merecer cada coisinha
Cada beijo, cada afago, cada umazinha
Aqui não tem mais espaço pra quem acha cool ficar com preta
Mas que não satisfaz a mina porque não gosta da cor da buceta
Acha que pode chegar na lábia e levar a preta na conversa
Mas agora a gente tá de olho, parça, no teu papinho furado de esquerdomacho que entende da vida dura que o povo preto leva
Entende porra nenhuma!
Leva essa tua história de alma preta pra lá e me deixa aqui na minha

A preta quer respeito, a preta quer humanidade
A preta não é só um pedaço de carne, um pedaço de carne
Ela também gosta de carinho, consideração e até de sentir saudade
Também quer trepar 
Mas não quer mais que sua cor de pele determine o que aquilo vai virar
Se só uma foda de uma noite ou um amor pra durar
Por isso termino esse poema com um adendo
Uma frase evolucionária: Preta, cultive seu afrodengo!

28.06.2017

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