Por que é preciso entender o que está acontecendo na China? E o que podemos enxergar de potencial no Brasil?
Conhecer um pouco da história de mais de quatro mil anos da China é imprescindível para entender o que está acontecendo no país atualmente. Uma civilização que construiu uma muralha de mais de vinte um mil quilômetros de extensão há mais de dois mil anos, e que teve uma cidade proibida que viviam os imperadores e suas centenas de concubinas, já impressionava pelos números há muito tempo! Hoje a população Chinesa vive um crescimento acelerado, com acesso à tudo que se possa imaginar em bens de consumo e serviços. Não se pode desprezar, no entanto, que muitos da geração anterior viveram na pobreza extrema e passaram fome. O que eles fizeram para mudar tão rápido esta história recente? Participei, com o grupo de embaixadores e empreendedores Endeavor, de uma missão para entender um pouco mais sobre o ecossistema de inovação Chinês, visitando diversas universidades, fundos de venture capital, aceleradoras e startups.
O Chinês é monitorado praticamente cem por cento do tempo pelo governo: o que você fala por wechat, onde você vai, com quem e o que faz. Existem milhares de câmeras de segurança com reconhecimento facial na rua e em todos os lugares. LGPD, que nada! E eles aceitam isto sem questionamento! Por quê? Porque eles confiam no governo e estão em grande e constante evolução de crescimento, qualidade de vida e segurança!
A China está voltada muito para o Chinês, e muito pouco, ou quase nada, para o estrangeiro. As dificuldades são imensas, a restrição de uso de aplicativos e sites como WhatsApp, Instagram, Facebook e Google tornam a vida mais difícil para nós ocidentais por lá. Como meio de pagamento, é altamente disseminado o WeChat e Alipay, sendo restrito o uso de cartão de crédito e quase uma estranheza usar dinheiro em espécie. A geração mais nova e com mais acesso fala inglês fluentemente, mas esta não é a realidade da grande massa. Pegar um taxi é impossível se você não tem o endereço em Chinês. Usar o Didi (Uber de lá), é um desafio para seus dados e cartão de crédito serem aceitos. A diferença de cultura potencializa esta dificuldade de comunicação, lá eles tomam bebidas na temperatura do corpo para manter a harmonia, então pedir gelo, por exemplo, é uma grande missão!
Na China o governo e empresas estão do mesmo lado, são sócios. O governo escolhe algumas empresas para darem certo e investir, sendo estas beneficiadas perante outras. A ideia não é existir monopólio, eles gostam de concorrência, mas entre as empresas escolhidas. Isto faz com que a decisão e a velocidade de execução sejam impressionantes. Em menos de vinte anos a China não tinha trem bala e hoje a quantidade é maior que todos países do mundo somados. O lema 996 também impressiona, o trabalho em empresas de tecnologia das nove da manhã, às nove da noite durante seis dias por semana. Na educação também está ocorrendo uma valorização intensa e com muito investimento, onde vários Chineses saem para estudar em outros países e voltam querendo retribuir e acreditando que podem melhorar seu país. Não existe mais discussão de que se a China vai ser a maior economia do mundo, a única dúvida é quando.
Volto com a convicção de é possível fazer cada vez mais e melhor no Brasil. Estamos com uma grande evolução ocorrendo no ecossistema de inovação e empreendedorismo com o surgimento de diversos unicórnios e startups em potencial. Nestes dois anos que imergi neste contexto consigo ver a imensa evolução na maturidade e preparação de empreendedores, investidores e empresas tradicionais. O Brasil tem praticamente 100% da população com uso de smartphones, e somos um dos maiores usuários em vários dos aplicativos mais famosos do mundo.
O nosso governo tem atrapalhado muito menos e tem ajudado com boas iniciativas e ações de liberdade econômica.
Nosso país é cheio de deficiências, o que nos gera muitas oportunidades. A redução de intermediários que não gerem valor e a diminuição de dificuldades em qualquer situação são tendências indiscutíveis. Vejo que teremos cada vez mais evolução no sistema financeiro, em meios de pagamento, investimentos e crédito. No varejo, a boa experiência de compras sendo fácil, rápida, eficiente e prazerosa é para onde estamos caminhando. A gestão de inventários, a logística sendo mais eficiente, principalmente no last mile, irão trazer cada vez mais redução de custos e mais facilidades para o consumidor.
Investimentos e condições estão mais favoráveis para bons empreendedores. A inovação e tecnologia são excelentes meios para tornarmos nossas vidas melhores. Precisamos fazer a nossa parte e focar no que é importante e precisa ser feito, sem reclamações ou distrações com itens sem importância. O empreendedorismo pode mudar o Brasil. É possível, só basta acreditarmos e fazermos!
Priscila Drebes, é diretora das Lojas Lebes e founder da B2in Ventures
