Dia desses eu vi meu pai.

Não foi algo combinado, tampouco uma visita. Foi num domingo, mais precisamente no dia das eleições. 
Eu e minha família voltávamos pra casa, de carro, quando o vejo sozinho no ponto de ônibus. Acredito que ia trabalhar, pois estava de uniforme. 
Todos no carro estavam entretidos em alguma conversa engraçada, e eu, quieta, olhando pela janela, fui a única que o vi. Na verdade, acho que talvez minha mãe - que estava no banco da frente - o tenha visto, mas se o fez, disfarçou muito bem e não comentou nada a respeito.
No mesmo instante que o vi ali parado, naquele domingo, tive medo do meu futuro. Vivo cada dia com esse medo, mas dessa vez foi uma espécie de “cling” que me bateu lá no fundo. Um frio no estômago, um nervosismo.

Me perguntei se, quando ficar mais velha, serei tão solitária quanto ele. Se por ventura serei esquecida pelos outros, por cada um ter coisas mais importantes para fazer. Ou talvez porque cada um terá encontrado sua cara metade ou seu objetivo de vida, e estará ocupado demais para ligar. 
E nesse momento senti pena do meu pai, porque esse é o tipo de sequela que ele deixou em mim. Apesar de tudo que me fez, vez ou outra tenho esses questionamentos que resultam em recaídas, e me sinto mal por ele. E eu tenho medo que ele tenha feito um estrago tão grande aqui dentro, que eu fique arredia e tenha esses altos e baixos até o fim dos meus dias, ao ponto de me tornar uma pessoa tão “deixada de lado” quanto ele é.


No mesmo dia, mais tarde, tive a visita de minha amiga. E me ocorreu que seria uma boa hora para mostrar o álbum de família, enquanto esperávamos o DVD rodar no meu notebook em atualização. Folheando o álbum, em algumas fotos eu apontava o dedo, e dizia: “essa é minha mãe, minha irmã, meu irmão, minha prima, meu pai”. 
É estranho e ao mesmo tempo natural dizer isso, pois como eu e meu irmão tivemos que cumprir visitas com ele desde pequenos, nunca o chamei de outra forma, por mais amarga que a palavra pai soe ao sair de minha boca. Porém, mais estranho ainda é dizer isso para a sua amiga, mesmo que ela saiba que você não tenha dito tal palavra para manter as aparências. 
Simplesmente sai assim. Mas eu retiro o “natural”, a palavra certa é costume. Automático. Sem emoção.

“Você tem notícias do pai?” “Não, ele nunca mais ligou pra mim (ainda bem, digo em voz baixa)” “Estranho, tô preocupado com ele”.

Ironias da vida…

Não ligo, não mantenho contato, não procuro saber, pois sei que me sentiria mal se o encontrasse cara a cara - assim como me sinto toda vez. Mas porque ainda sou tomada pela culpa? Porque ainda sinto como se - apesar de tudo - eu não seja uma boa filha? Como se estivesse cometendo um grande erro em tentar esquecer, em ser evasiva, em ocupar minha mente com outras coisas, em fazer o máximo para não me importar, em deixar pra lá, em empurrar com a barriga, em ir cobrindo as feridas com gazes intermináveis de um estoque que, na verdade, já acabou faz tempo. 
Nunca me sinto em paz, e ter esse tipo de desencontro só piora tudo. Tudo.

Às vezes, penso que nessa de eu gostar de ficar sozinha, um dia me tornarei solitária, enfim. Gostando ou não.

“Você tem notícias da Pri?” “Não, ela nunca mais ligou pra mim (ainda bem, ela era tão complicada e melancólica)” “Estranho, mas se algo tivesse acontecido nós saberíamos. Né?”

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