A ridicularização da política

Não costumo publicar entrevistas nesta coluna, mas como as perguntas do Juremir Machado valem mais do que as respostas que tentei apresentar — e que foram publicadas no jornal Correio do Povo, que circula no Rio Grande do Sul -, acho que está valendo (além de tudo, estou escrevendo um romance e minha cabeça está lá…).

Que as perguntas e as respostas (sempre inconclusas) nos façam pensar nesses tempos em que o Ridículo Político é cada vez mais infinito e as cenas inacreditáveis continuam nos mostrando sinais para mudar de rumo em termos éticos e políticos.

Por que Michel Temer e Jair Bolsonaro são os primeiros exemplos de ridículo político que lhe vem à cabeça?

A ideia do RP remonta ao espanto que sempre tivemos com Berlusconi fora do Brasil ou com Tiririca no Brasil. Michel Temer tornou-se um personagem exemplar, quando ainda fazia papel de vice. Jair Bolsonaro figura em várias cenas do Ridículo Político. Uma diferença importante no meu livro é que o Ridículo Político é uma categoria de análise geral que serve tanto para analisar o parlamento, as instituições do poder, mas também o cotidiano como instância da vida política. Meu foco não foram os políticos enquanto “ridículos” como costumamos tratar em um sentido mais vernacular, digamos assim, ainda que certos personagens entrem com frequência nas cenas do ridículo político. Eu quis responder à pergunta “como é possível que certos personagens conquistem tantos votos, se capitalizem politicamente justamente onde todos se sentiriam envergonhados e humilhados?”

Pierre Lévy saudou a internet como embrião de uma democracia virtual. Para Umberto Eco as redes sociais deram voz aos imbecis. O ridículo na política tem sido ampliado pelas fake news, pela pós-verdade e pelo fascismo disseminado no ciberespaço como lugar situado aquém ou além do social?

Podemos interpretar a vida política a partir das condições da cultura. Nunca esqueço a frase de Adorno e Horkheimer: a racionalidade técnica é a racionalidade da dominação. Em certo sentido, isso quer dizer que tudo o que pensarmos sobre o poder deve hoje em dia referir-se às condições tecnológicas que o instaura e sustenta. Essas condições hoje são digitais e espectrais, não podemos fugir disso.

Marcela Temer presta um mau serviço ao combate ao machismo e, de certo modo, se ridiculariza aceitando um papel anacrônico?

Essa é uma personagem curiosa, porque ela aparece com uma espécie de prótese política que não vingou na tentativa de melhorar a péssima imagem de seu marido. Michel Temer tem a maior rejeição da história, o que não é brincadeira para um político. Ele não existe nem mesmo no contexto em que a política se torna publicidade. Eu diria até que ele contribui hoje para desmoralizar o cargo de presidente, evidentemente como não poderia deixar de ser ao usá-lo ilegitimamente. Mas Marcela Temer não tinha qualidades que permitissem ajudá-lo realmente nesse processo de melhoria de imagem. Ficamos sabendo que ser “bela, recatada e do lar” é um mico. Para convencer o povo é preciso mais que isso, mais no sentido de melhor e de pior. Ela se colocou, ou foi colocada, como uma figura patética ao lado do marido e isso de nada serviu. No livro eu analiso o conceito de “madamismo” para dar conta desse fazer tipo, dessa atuação em torno de um tipo e de um padrão de gosto estético que inclui imagens como a dela e, ao mesmo tempo, todo uma população ligada a uma classe social que também faz tipo de “madame”, o que define o esteticamente correto como acobertamento do politicamente incorreto que conhecemos bem, mas que acabamos por disfarçar.

Os políticos perderam o medo e a vergonha do ridículo?

O ridículo se tornou útil. Ele é um meio de obtenção do poder, como uma isca estética. O que Bolsonaro e outros fazem é capitalizar em cima disso. Essa a inflexão que o meu livro analisa: aquilo que era vergonhoso, tornou-se, por muitos caminhos, bacana. Onde antes alguém sentiria vergonha, hoje se torna sujeito do poder institucional com a adesão pública. Enquanto eles não sentem mais vergonha, ou se sentem, não se apresentam, nem agem a partir dela, a população que se mantém lúcida, sente vergonha alheia. A vergonha alheia é um efeito da falta de vergonha de quem, por envolvimento com o ridículo, deveria senti-la, mas não sente.

Marcia Tiburi

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