A zumbificação do mundo

De que verdade estou falando? A verdade da zumbificação do mundo. Cada época tem os monstros que merece, digamos assim. Toda imagem em cada época revela energias psicológicas, morais e políticas que são sua verdade mais inerente. Ou seja, aquilo que aparece mesmo quando não devia aparecer, quando seria melhor que não aparecesse. Se nos séculos 19 e 20 os vampiros fizeram sucesso, no século 21 os zumbis tomaram a cena e os vampiros parecem cada vez mais antiquados.

O que tem um zumbi que o vampiro ou qualquer outro monstro mais clássico, por assim dizer, não tem? Uma determinada relação com o tempo. Vampiros viviam entre o dia e a noite, se moviam lentamente, precisavam enganar suas vítimas com gestos e simulações que exigiam de um tempo para acontecer. Vampiros se transformavam em morcegos. Eram ligados à animalidade e, desse modo, com a vida. Assim também acontecia com os lobisomens. Qualquer vampiro atravessa os séculos e seu tempo é medido em séculos. Por isso, a narrativa do vampiro é longa e sempre sobra alguém para o futuro.

Já o filme de zumbi mostra uma vida vivida como morte, dia e noite já não importam. O corpo do zumbi não tem saúde nem vitalidade e nenhum sangue o alimenta. O corpo zumbi atua sem esperança alguma. Os vampiros sobreviveram na época romântica como a tristeza de mortos que viviam como vivos, ou, melhor ainda, como seres límbicos, larvares entre a vida e a morte. Já o zumbi é sem futuro e, por isso, vive sem esperança alguma, no mais completo desespero. Por isso, sem grandes metamorfoses, as pessoas se tornam zumbis em vinte segundos, sem chance de retorno, sem qualquer expectativa de salvação.

Kierkegaard, autor cristão e romântico do século 19, escreveu um livro chamado A doença para a morte, no qual fala sobre o desespero. O desespero seria justamente a “doença para a morte” ou, se pensarmos bem, a vida vivida como uma doença na qual não se pode esperar mais nada.

Chegamos nesse lugar com o projeto-programa neoliberal. Adequado para o surgimento e para a sustentação da experiência zumbi.

Se a racionalidade técnica é a racionalidade da dominação, como diziam Adorno e Horkheimer em sua Dialética do Iluminismo, entende-se por que o tipo de susto zumbi é diferente do susto do vampiro. Vimos aliás, essa mutação na história do cinema. Da lentidão sepulcral de Nosferatu aos voos rasantes de Deixa ela entrar (2009), também o vampiro se tornou mais ágil. Até os vampiros sofrem de zumbificação. Dessa mudança no movimento que implica a velocidade das máquinas e das conexões digitais.

O susto zumbi é rápido porque não há tempo há perder. Ele é instantâneo como os movimentos da câmera que nos mostra o mundo zumbi. De repente, é estranho, mas ninguém sente mais susto algum ao ver um filme de terror tão intensamente pavoroso. O terror se tornou literal, vemos atores e espectadores anestesiados de tanto pavor. A coisa toda ficou naturalizada.

A política zumbi

A estética zumbi caracteriza a nossa época. E a ela corresponde uma política zumbi.

Michel (para) Temer é, na sabedoria iconográfica popular, um vampirão, como dizem há tempos. Porém, com a demonstração do apodrecimento generalizado dos personagens políticos, entramos com força na era dos zumbis políticos. Não espanta que a sabedoria iconográfica da internet tenha configurados Aécios e outros como personagens caricatos desse processo de zumbificação da política.

Desesperados por dinheiro, por poder, adoecidos para a morte, de dentro dela, todos correm para o alvo que é o corpo vivo ainda saudável, não para sobreviver nele, mas para puxá-lo para dentro da morte sem esperança, nem expectativa. A zumbificação acontece no tempo dos zumbis que é também o tempo digital, no qual tudo é instantâneo, no qual não há tempo para a salvação. O niilismo é a última verdade.

Ao corpo devorado pelo desespero podemos dar o nome genérico de democracia. Por isso, a pergunta urgente é: como produzir democracia e qual seria a sua chance, a sua qualidade, em tempos de zumbificação geral?