MOVIMENTO PASSE LIVRE

Em meados de janeiro, o Movimento Passe Livre — que se tornou nacionalmente conhecido quando bateu o pé diante do aumento de vinte centavos no preço do transporte público, o que resultou na maior mobilização popular da história recente do país — organizou mais uma passeata nas proximidades da Prefeitura de São Paulo. Ao longo de um quilômetro, pouco mais de 800 pessoas — segundo estimativas otimistas dos próprios organizadores — engrossavam o grupo que, debaixo de chuva e escoltados de perto pela Polícia Militar, queimava catracas feitas de papelão e recitava um jogral em nome da queda no preço das passagens de ônibus e trem. Menos de três horas depois do começo do protesto, a turba já havia se dissipado sem alarde. Até mesmo quem nutria grande simpatia pela causa passou a se questionar: “Será o fim do MPL?”
As jornadas de junho levaram milhares de pessoas às ruas — primeiro contra o aumento das tarifas, depois contra o governo Dilma Rousseff. Criado há doze anos por cerca de 120 ativistas identificados com a causa antiglobalização, o movimento viveu por quase uma década imiscuído às lutas sociais, sem fama fora do círculo da esquerda militante. No auge da popularidade do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva — enquanto os jornais daquele janeiro de 2005 estampavam fotos de Lula ao lado de Bono Vox e Bill Gates no Fórum Econômico Mundial, em Davos –, eles participavam de um outro fórum, o Social Mundial, com o objetivo de criar oficialmente uma frente popular nacional em prol da gratuidade no transporte público para estudantes. Nada indicava que aqueles ativistas arredios a microfones e que se autodeclaravam um movimento sem lideranças seriam capazes de convulsionar o Brasil.
A principal inspiração para a criação do MPL foi o ato que ficaria conhecido como a Revolta da Catraca. Seis meses antes do Fórum Social Mundial, 20 mil pessoas saíram às ruas de Florianópolis para barrar um aumento de 15,6% na tarifa de ônibus, em protestos marcados pela violência policial e pelo fechamento de vias. Apesar do barulho, o movimento andou pelas sombras até ganhar os holofotes em 2013. “Internamente nós já sentíamos que a coisa estava ganhando outra dimensão”, disse o psicanalista catarinense Daniel Guimarães, de 34 anos, fundador do grupo, durante uma tarde na Clínica Pública de Psicanálise, um projeto na Vila Itororó, próximo a avenida 23 de Maio, onde faz sessões gratuitamente.
Sentindo uma vibração diferente nas ruas e a chegada de manifestantes sem ligação com o grupo, o movimento começou a lançar balões de ensaio de grandes passeatas no final de 2012. “Mãos ao alto! Esse aumento é um assalto!”, gritavam pelas ruas, acompanhados pela polícia, em atos até então com poucos incidentes de violência. Na virada do ano, manifestações em Porto Alegre, Natal e Goiânia deram o tom do que viria pela frente.
Ainda no primeiro semestre do ano, manifestantes incendiaram lixeiras e pneus, trancaram ruas, depredaram ônibus, bancos e comércios, e ganharam as manchetes da imprensa nacional. Institucionalmente, o MPL procurava se afastar da baderna sob a justificativa de que era contrário à violência.
revista piauí
