Por que a política se dividiu entre esquerda e direita

O fim do século 18 foi um momento especial na Inglaterra. Influenciados pela independência dos Estados Unidos em 1776 e pela Revolução Francesa em 1789, políticos e pensadores do país debateram qual seria a influência desses movimentos na monarquia e na aristocracia britânicas. Na liderança da defesa dos valores tradicionais estava Edmund Burke, político e filósofo que combatia a ideia das reformas radicais daqueles movimentos. Do outro lado estava Thomas Paine, pensador libertário de grande influência no movimento de independência americano. Os dois trocaram cartas e publicaram uma série de textos contestando as ideias um do outro. Esse debate, para Yuval Levin, cientista político e jornalista, está na origem das divisões entre a esquerda e a direita que vemos até hoje na política.

No livro O Grande Debate, que será lançado neste mês no Brasil, Levin conta a história do embate de ideias entre Burke e Paine e como isso influenciou a política no Ocidente. Nascido em Israel, Levin é hoje um influente comentarista conservador nos Estados Unidos. A seguir, leia um trecho inédito de seu livro.

“Qualquer pessoa que busque as origens de nossas ideias políticas é atingida pela importância dos eventos do fim do século 18. Entre 1770 e 1800, muitos dos conceitos, termos, divisões e argumentos cruciais que ainda definem a vida política surgiram no mundo de forma feroz e impetuosa. Foi a era das revoluções Americana e Francesa e, durante muito tempo, tivemos o hábito de atribuir a explosão da filosofia e do drama político na modernidade a esses dois levantes. A Revolução Americana — a primeira revolta colonial bem-sucedida — fez nascer uma nação que personificava o ideal do Iluminismo, ao passo que a Revolução Francesa iniciou a busca moderna pelo progresso social. O fundamento da política moderna foi forjado nas duas revoluções, ou assim dizem os livros.

Evidentemente, há muita verdade nesse clichê, mas essa é uma verdade parcial. De fato, o fim do século 18 foi palco de um grande debate sobre o significado do liberalismo moderno — um debate que, desde então, moldou a vida política da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e de uma crescente porção da humanidade. A Revolução Americana personificou o debate e a Revolução Francesa o intensificou, mas ele precede e sobreviveu a ambas.

As facções da luta na França — jacobinos e girondinos, monarquistas e aristocratas — não têm paralelo real na política contemporânea. Mas as facções do intenso debate anglo-americano sobre a Revolução Francesa — um partido do progresso e um partido da conservação — têm clara semelhança com partidos que hoje compõem a política de muitos países. As divisões que surgiram naquela época deram origem a elementos-chave da divisão esquerda-direita de nossos tempos. O debate tinha a ver com as promessas e os perigos das revoluções Americana ou Francesa e trouxeram à superfície uma discordância que jamais perdeu a proeminência.

Não há representantes melhores desse grande debate do século 18 do que os filósofos políticos Edmund Burke (1729–1797) e Thomas Paine (1737–1809). Burke era um político e escritor britânico, irlandês de nascimento; um homem de opiniões intensas e com um talento sem igual para expressá-las em retórica política. Foi o mais devoto e hábil defensor de sua época das tradições da Constituição inglesa. Reformador paciente e gradual das instituições de seu país, ele esteve entre os primeiros e mais inflexíveis e efetivos críticos da influência do radicalismo da Revolução Francesa na política inglesa.

Já Thomas Paine era um inglês que imigrou para os Estados Unidos e tornou-se uma das mais importantes e eloquentes vozes na defesa da independência. Quando a revolução começou na França, tornou-se um defensor da causa revolucionária, como ensaísta e ativista em Paris e Londres. Mestre da língua inglesa, ele acreditava no potencial do liberalismo iluminista para avançar a causa da justiça e da paz, ao desalojar regimes corruptos e opressores e substituí-los por governos que respondessem ao povo. Foi um brilhante e apaixonado defensor da liberdade e da igualdade.

Ambos eram homens de ideias e de ação — com retórica política poderosa e profundo comprometimento moral com uma causa. Ambos viram nos debates da época bem mais que as particularidades dos eventos que os iniciaram. Eles se conheciam, encontraram-se várias vezes, trocaram cartas e responderam publicamente aos textos um do outro. Sua disputa privada e pública sobre a Revolução Francesa foi chamada por especialistas de ‘o mais crucial debate ideológico jamais conduzido’. Mas a profunda discordância entre Burke e Paine se estende muito além de confrontos diretos. Cada um deles deu voz a uma visão de mundo diferente sobre as mais importantes questões do pensamento político liberal-democrático.

Este livro procura examinar essa discordância entre os dois e, com base nela, aprender tanto sobre a política daquela era quanto sobre a nossa. O conservadorismo reformador de Burke e o progressismo restaurador de Paine são mais complexos e coerentes do que parecem. E uma consideração cuidadosa pode esclarecer os debates de nosso tempo, especialmente a linha divisória de nossa política atual. Como Burke e Paine nos mostram, a linha entre progressistas e conservadores divide dois tipos de política e duas visões distintas da sociedade liberal.

Exame

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Primeiro Conceito’s story.