A Conquista do Tempo
Quando eu era criança, eu me lembro que não tinha medo do monstro no armário. O que me deixava assustada de noite, quando eu puxava os cobertores e fechava os olhos, tinha uma natureza bem diferente.
Eu tinha medo do infinito.
Eu fechava os olhos e vislumbrava um universo que existia desde sempre e que continuaria a existir para sempre, e eu sentia um sufoco, algo que eu só poderia descrever como um desespero agudo.
Como uma formiga que subitamente deslumbrasse a imensidão do planeta, como uma mosca que vislumbrasse que seu tempo de vida é tão curto, tão curto…
Mas a formiga não se importa com o tamanho do mundo. A mosca não se importa com o tempo que se estende além da sua vida.
Então, por que imaginar o infinito me enchia de pavor?

Hoje eu consigo perceber que no infinito eu enxergava a incerteza do tempo. Olhando para trás, consigo enxergar como esse meu medo do tempo infinito e incerto guiou tantos atos meus.
Quando eu ia tomar injeção, eu não olhava para o lado nem fechava os olhos. A dor? Com a dor era fácil lidar. Não saber o momento exato em que receberia a injeção era o que fazia meu estômago girar.
Sempre me senti atraída por histórias que envolvessem viagens no tempo. Mais especificamente, viagens em ciclos nos quais os personagens tentavam, de novo e de novo e de novo e de novo, criar uma história melhor.
Se eu pudesse viajar no tempo, não teria medo dele.
(E quando aqui escrevi medo, antes escrevi, em um ato falho, tempo. Em outros tempos, veria nisso apenas a falha de alguém que escreve rapidamente. Hoje, não consigo não pensar que estou aqui desnudando essa parte de mim que há tanto trata tempo e medo como sinônimos.)
Pouco me importava que a mensagem dessas histórias consistisse em uma reafirmação da impossibilidade de domar o tempo - que as consequências dos nossos atos fogem ao nosso controle e que, quanto mais tentamos negar isso, mais o efeito borboleta nos esmaga.
Um dia eu me dei conta que a melhor demonstração de poder é ter o tempo sob controle.
Não falo do controle de um viajante no tempo que pode entrar em uma cabine azul e viajar pelo tempo e espaço. Falo do controle geralmente reservado aos vilões: são eles que armam a bomba, que calmamente discursam enquanto o mundo está em chama. Os heróis em geral apenas reagem, são oprimidos o tempo todo pelo tic tac de uma bomba — metafórica ou não.
Há uma cena do seriado Blacklist que me marcou profundamente por conta disso. Liz quer que Red lhe conte algo importante. Estão todos atrás de Red, helicópteros e carros de polícia se aproximam do parque onde os dois se encontram. Ela reage a isso, se aflige, urge para que Red lhe conte logo o que ela precisa saber.
Mas não Red. Ele é dono do próprio tempo — continua a contar o que deseja no seu próprio ritmo. É difícil ver essa cena e não admirar a presença do personagem, o quanto ele domina a situação e exibe esse domínio pelo simples fato de não se apressar.

Essa cena me marcou como a visão de uma mesa farta marcaria uma criança faminta e que jamais tivesse se alimentado até ficar satisfeita. Algo que eu imediatamente desejei com todas as minhas entranhas, com o nó do meu estômago. Reconheci ali algo que sempre desejei e jamais tive.
Um mago nunca se atrasa, nem se adianta, ele chega exatamente quando pretende chegar, já me disseram. É assim que se reconhece seu poder, eu diria.
Oras, creio que ninguém realmente possa ter o controle do tempo — nem mesmo Gandalf. Mas é a diferença entre um controle interno e um externo da situação. É impossível ter um controle do que me é externo, mas se tenho um controle interno, posso lidar com as incertezas do externo.
Digo que tenho medo do futuro porque ele é incerto. Mas isso não é verdade. O futuro é incerto para todos, mas há aqueles que cultivam seu interior como uma rocha à beira-mar: as ondas e o vento podem circundá-la e modificá-la de maneiras imprevisíveis mas, em milhares de anos, a rocha ainda estará lá.
Não, espere…. tenho uma imagem melhor. Algumas pessoas são como uma floresta de bambus: podem parecer frágeis diante das intempéries do tempo, e podem se curvar diante dos ventos mais fortes mas, quando o ar se acalma é possível ver que ainda estão lá: o mau tempo não as arranca do solo firme.
Então talvez seja isso. Talvez eu precise aprender a fixar minhas raízes para que as tempestades não me levem para longe.
Talvez quando eu conseguir fortalecer meu próprio tempo eu não me sinta mais esmagada pelo tempo dos outros.
Mas, é claro, só o tempo — sempre ele — é capaz de dizer se terei sucesso ou não.

