Um Resumo do Curso “Aprendendo a Aprender”, de Barbara Oakley

Como mencionei no artigo anterior, decidi dedicar algum tempo a tentar entender como nós aprendemos. Quando vi um curso online tratando justamente disso, tratei de me inscrever e, depois de ver o material das quatro semanas de curso, posso dizer que foi uma boa decisão.

O curso pode ser visto no Coursera, e possui também uma versão em português (imagino que com legendas e todo o material escrito em português, mas eu não cheguei a me inscrever para confirmar) e é ministrado pela Barbara Oakley, professora PhD com foco na relação entre neurociência e comportamento social, e pelo Terrence Sejnowski, cujo foco é a neurobiologia e que é um dos principais responsáveis pelo site brainfacts.org. Como se pode imaginar, o curso é focado em expor os resultados e descobertas obtidos nas mais recentes e confiáveis pesquisas científicas sobre o assunto.

Aqui estão as ideias principais do curso:

Os Dois Modos de Trabalho do Cérebro: Focado e Difuso

Nosso cérebro trabalha alternadamente em dois estados: no estado focado, um pensamento “ativa” uma determinada região, ativando uma série de ideias conectadas. É o caminho já trilhado, que já conhecemos bem, como os passos de uma receita que já fizemos dezenas de vezes. Quando nos sentamos e nos concentramos em algo, é nesse modo que nosso cérebro entra, tentando encontrar as memórias conectadas ao problema que temos diante de nós.

O outro modo, o difuso, é um modo de exploração. É como uma busca na qual não temos muita certeza do que estamos procurando, e por isso vamos buscando e olhando em todas as direções até encontrarmos algo que pareça certo. Esse é o modo quando deixamos nossa mente “divagar”, quando estamos pensando na vida debaixo do chuveiro ou correndo enquanto admiramos a paisagem ao nosso redor.

O importante é o seguinte: esses dois modos não funcionam ao mesmo tempo. E, mais importante: nós frequentemente precisamos desses dois modos para resolvermos problemas complexos. Quando temos algo novo diante de nós, não é suficiente apenas nos lembrarmos do que já sabemos, mas também é necessário encontrar novas conexões. Por isso é tão comum que, depois de horas tentando resolver um problema, a solução nos venha de repente, enquanto tomamos banho ou depois de apagarmos as luzes de cabeceira e fecharmos os olhos.

Outro corolário: para resolvermos problemas complexos, precisamos de tempo, para que nossa mente possa alternar entre esses modos enquanto busca por uma solução. Sair com amigos, fazer exercícios ou simplesmente tomar banho podem ser passos tão importantes na resolução de um problema quanto as horas que passamos debruçados sobre ele.

A Necessidade de Tempo para a Construção de Redes Neurais

No item anterior, eu mencionei que no modo focado o cérebro busca a resposta em áreas bem definidas, como um caminho já bem conhecido. Mas como formamos essas áreas de conhecimento?

Praticando. A prática forma e torna mais fortes essas áreas, e quanto mais fortes esses conjuntos de memórias, mais facilmente vamos nos lembrar adequadamente desses conhecimentos no futuro.

Mas, aqui pode ser interessante comparar o cérebro aos músculos do nosso corpo: não é possível que um atleta pratique 20 horas por dia pouco antes de um campeonato se quiser formar músculos. Não apenas pelo esgotamento físico, mas pelo fato dos músculos precisarem de tempo: o tempo de descanso entre um treino e outro é tão essencial para o fortalecimento do músculos quanto o treino em si.

O mesmo vale para o cérebro: se um determinado teste exige, digamos, 10 horas de estudo, não basta estudar 10 horas um dia antes da prova — isso normalmente resulta em uma rede fraca, como a parede de tijolos acima, e que vai se desfazer assim que a prova for entregue.

Daí a importância não apenas da repetição, mas da repetição espaçada (prestem atenção nisso, esse provavelmente é um dos tópicos mais importantes dentre os que eu aprendi): 1 hora de estudo em um dia, mais outra hora no dia seguinte, daí um intervalo de 48h antes de estudar mais 1 hora… Para que a parede seja construída lentamente e de maneira sólida.

Ou seja, há muita evidência científica de que estudar horas e horas um dia prova NÃO é eficiente! Se há uma coisa que vocês vão lembrar desse artigo, tentem se lembrar disso!

Memória de Curto Prazo, Memória de Longo Prazo

Isso certamente é familiar para a maioria: nós temos duas “memórias”: uma de longo prazo, que funciona como um grande armazém…

…e que, como vimos em Divertida Mente, serve para que nos lembremos de músicas “chiclete” em momentos inoportunos…

…e a memória de curto prazo, aquela na qual estão as informações que você está utilizando no momento.

O que talvez não seja de conhecimento comum: quanta informação você acha que conseguimos manter nesse espaço de “memória de trabalho”? 100? 50?

Talvez 25?

15?

8, para lembrar o nome de cada anão e da Branca de Neve?

Ainda há discussão sobre isso, mas a literatura especializada hoje fala em…

…quatro.

Sim, apenas quatro espaços. Parece desesperador, se imaginarmos a complexidade de muitas tarefas do nosso dia-a-dia, não é mesmo? Como lidamos com uma memória de trabalho tão curta? Há pessoas que conseguem comprar expansão de RAM, e por isso parecem que conseguem lidar com um número maior de informações? Há um mercado negro de compra de memória de curto prazo?

Não, o segredo está na otimização dessas informações. Afinal, o que é uma informação? Eu não tenho conhecimento suficiente para fazer uma definição perfeitamente científica mas, na para mim, uma informação é uma área coesa e bem conectada de sinapses que são ativadas em conjunto. E aí surge o “truque”: não há exatamente um limite na quantidade de dados que podem estar em um desses espaços. Um espaço pode ter apenas o nome de uma pessoa e seu rosto, ou então toda uma complexa receita, com todos os ingredientes e passos necessários.

Os “Nacos” de Informação, ou, o 7zip da Sua Mente

Mas então, como ser capaz de guardar toda uma receita (ou qualquer outro conjunto de informações relacionadas) em um desses espaços?

Vamos retomar o que já foi exposto: como a mente forma redes neurais mais fortes? Praticando, praticando, e praticando — quanto mais um conjunto de informações for utilizado, mais sua ligação irá se fortalecer, criando uma espécie de “fita” em sequência. Pode-se imaginar então que é possível “amarrar” essa fita em um dos espaços disponíveis na memória de trabalho, para então ter acesso a todo o seu conteúdo.

Mas como deve ser essa prática? Não apenas apenas repetir uma informação, ou ler várias vezes um mesmo texto. Essas sequências se fortalecem quando são utilizadas de maneira ativa. E o que significa “ser utilizada de maneira ativa”? Consiste em ir buscar essas informações na sua mente, forçar seu cérebro a buscar o que é necessário em seu mini-universo de dados.

Ou seja, testar seu conhecimento.

Aqui algumas pessoas sentem calafrios, ao se lembrarem das provas da escola — outra grande desserviço do sistema de ensino à nossa educação, mas isso é assunto para outro artigo.

Mas testar um conhecimento não precisa ser algo estressante. Quantos não gostam de jogar Perfil, não respondiam às perguntas do Show do Milhão, ou de qualquer outro programa ou jogo de perguntas e respostas? Quando se pratica uma habilidade, também se está testando um conhecimento, embora um músico praticando uma música talvez não enxergue sua prática como “teste”.

Testes frequentes são uma das maneiras mais eficientes de se aprender e gravar algo na memória. É necessário aprender a lidar com isso, a praticar de maneira ativa, e não meramente passiva (ou seja, apenas lendo algo).

E Outros Estranhos Aspectos da Nossa Memória

Acima eu tentei expor o que eu entendi como sendo o essencial sobre o funcionamento da nossa memória. Em artigos futuros eu pretendo falar com mais detalhes sobre sistemas de repetição espaçada, motivação e alguns outros assuntos relacionados, mas eu ainda gostaria de mencionar aqui alguns outros detalhes sobre a nossa memória que podem ajudá-los a planejar seus estudos.

Dois aspectos relevantes sobre nossa memória: nossa memória é especialmente boa para lembranças visuais (e ruim para conceitos abstratos), e ela presta atenção redobrada ao que é estranho.

…na casa de vocês não existe comida gigante?

Uma técnica que envolve esses dois fatos se chama “palácio da memória”: ao ter de se lembrar de uma lista de elementos, imagine-se em um lugar familiar, e então coloque cada um dos itens em um lugar da casa. Sua mente consegue gravar mais facilmente essa ordenação visual, e você vai estranhar ver itens gigantes em locais inesperados o suficiente para guardá-los com mais facilidade.

OK, é uma técnica que eu não uso atualmente — se eu tenho uma lista com mais de três itens, o mais provável é que eu simplesmente a guarda na mente do meu celular. Mas tenho usado esses fatos sobre o cérebro de outra maneira em meus estudos: ao fazer cartões de revisão, quando é possível, eu tento colocar imagens. Se possível, imagens ligeiramente absurdas e — o que nem sempre é fácil — que tenham uma ligação pessoal comigo.

Por exemplo, para me lembrar que “Einfach” é a palavra em alemão para “fácil”, eu utilizei uma imagem de… Dark Souls. O que é algo um tanto quanto absurdo, e que tem uma conexão pessoal comigo porque meu namorado sempre fala “Ah, mas esse jogo não é difícil…”. Garanto que eu dificilmente vou me esquecer dessa palavra depois de ter feito essa associação.

Durante um tempo eu tive um grande preconceito contra “músicas” e outras coisas “bobinhas” que se costumam ver em cursinhos, mas hoje eu vejo isso de uma maneira diferente. Embora seja claro que você não vai aprender algo com esses “truques”, eles podem ajudar no processo de fortalecimento e memorização do conhecimento, fazendo com que sua mente se lembre daqueles dados mais rapidamente.

O curso ainda explora alguns outros aspectos, mas que eu prefiro deixar para outro momento.

Ah, sim: essas são apenas minhas notas, ou seja, o que eu aprendi com o curso. Embora eu tenho um grande grau de confiança no que foi passado no curso e em suas bases científicas, é possível que eu tenha confundido algo enquanto estudava. Ou seja, se há algo de errado aqui, provavelmente é culpa minha. E se você se interessar por algum assunto específico e quiser ler pesquisas, não se acanhe em pedir informações.

** todas as imagens são © de seus respectivos donos, tendo sido retiradas do curso “Learning How to Learn”, e com uma imagem de Divertida Mente, © da Pixar.