Marcha das Mulheres Negras: nossos passos vêm de longe | Observatório de Favelas

Mulheres Negras de diferentes gerações em marcha — Foto: Benjamim

Por Priscila Rodrigues (priscila@observatoriodefavelas.org.br)

Sou mulher preta. Cabelo crespo, nariz achatado, quadril largo. Meus ancestrais chegaram aqui acorrentados em porões de navios. Nossos corpos foram açoitados, explorados, violentados…E ainda são. No dia 18 de novembro de 2015, exausta, em frente ao Congresso Nacional, me senti mais forte.

Dois dias antes, aqui no Rio, já marchávamos. Quem passou pela Fundição Progresso não pôde deixar de observar o aglomerado de mulheres negras que não parava de aumentar. Ao todo, três ônibus. Mais de uma vez ouvi alguém falar “Coitado do motorista! Ah, se essas pretas se revoltam…” E já não estávamos revoltadas?

Em plena segunda-feira, mulheres negras deixavam para trás trabalhos, compromissos, filhos e filhas (algumas carregavam junto ao seu corpo). Sim, nos sentíamos revoltadas, rebeldes, aventureiras. Guerreiras! Tal qual Dandara, Tereza, Aqualtune, Carolina… Aliás, a última esteve presente durante toda a viagem. Em forma de palavras nos deu força. Algumas até choraram. Todas se identificaram.

Lá pelas tantas, puxaram um par de brincos. Feito de material reciclável. Vendido! Era uma marca e não era a única naquele ônibus. Tinha proprietária de loja, produtora de Feira, estilista… Virou uma rede! Uma aula de empreendedorismo. A crise passou longe dali. Ah, se não tentassem tanto nos silenciar!

Vinte e quatro horas depois chegávamos ao destino: Brasília. Mulheres negras de todos os cantos do país. De tão cansadas, cantamos e dançamos até tarde. De tão tarde fez-se dia. O dia! Se eu vivesse mil anos, não esqueceria. Uma multidão ocupando as ruas. Traziam faixas, turbantes, batas, rostos pintados, olhos brilhantes e sorrisos. As mais velhas abriam o caminham e choravam. Seus passos vinham de muito, muito longe.

Uma sobe e puxa a outra

Mais de 50 mil mulheres negras na rua contra o racismo, a violência e pelo bem viver. Brasília nunca foi tão linda! Só de construção, foram mais de três anos. E o Mapa da Violência 2015 grita: temos muito trabalho pela frente. O número de homicídios contra as mulheres cresce, sobretudo entre as negras. Em 2013, a cada cinco mulheres assassinadas, três eram negras.

Diante do Congresso, o mais conservador da história recente, gritamos: “Machistas! Racista! Não passarão!” E não passaram mesmo. Armados de intolerância, ódio e vingança alguns até tentaram. E, se não conheciam, descobriram naquele momento o poder da mulher preta.

Fizemos história! Em marcha, representávamos 25,5% da população brasileira. Éramos privilegiadas, é fato! Para maioria das mulheres negras estar ali não era um possibilidade. Essa foi a primeira, mas, acredite, muitas outras virão. Afinal, somos “Mulheres negras. Mulher brasileira, mulher de fibra, mulher de fé”.

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