Um Parque para chamar de nosso | Observatório de Favelas

Por: Priscila Rodrigues (priscila@observatoriodefavelas.org.br)

“Tenho que ir à cidade” Aos que sempre viveram para além do Túnel Rebouças, essa frase pode parecer estranha. No entanto, quem nasceu e foi criado na periferia do Rio de Janeiro sabe muito bem que a utilização do termo cidade aplicava-se, principalmente, como sinônimo de Central do Brasil. Como se morar afastado do centro fosse condição suficiente para se sentir ou ser tratado como “fora da cidade”. Excluído! Mas essas relações de espaço, aos poucos, têm mudado. Um percurso que com a incorporação da cidade do Rio ao Estado do Rio de Janeiro em 1975 vem, progressivamente, demonstrando alterações. Um bom exemplo é o Parque de Madureira. Desde a sua inauguração, o local já foi palco de diversos eventos, entre eles o “Movimento Negro Cultural — Meu Cacho & Meu Crespo”, o lançamento da campanha “Juventude Marcada Para Viver” e o ato “Contra o Genocídio da População Negra”. Construído para ser uma opção de lazer — a cada ato, feira, campanha ou festival — tem se destacado como um lugar de mobilizações potentes na zona norte.

Potencializar a cultura negra é o objetivo da produtora do “Movimento Negro Cultural — Meu Cacho & Meu Crespo”, Barbara Lage. O evento, que acontece uma vez por mês no Parque de Madureira, já está em sua 12º edição. A partir da estética, Bárbara e uma rede de voluntários promovem oficinas, trocas de livros e debates sobre a identidade do povo negro. “O nosso grito como negro começa com a estética. É pelo cabelo, é pela roupa, é pela aceitação do fenótipo… e por aí entramos em outras vertentes. Precisávamos de um núcleo. Um lugar em que a pessoa entrasse e se sentisse em casa. Encontrei isso no Parque de Madureira. Lá você consegue ver uma mulher preta trançando. Você consegue ver um preto dançando. Você consegue ver um médico preto. Você consegue ver uma faxineira preta. Ali a carne preta é vista. Madureira é um pedaço de África”, afirma.

Não por acaso, o lançamento, em 2013, da campanha “Juventude Marcada Para Viver (JMV)” que buscava sensibilizar a população para o alto índice de assassinatos dos jovens negros, também foi realizado no Parque de Madureira. “A proposta era circular a cidade. Realizamos dois flash mob no Centro. Fizemos gravação no Morro da Baiana, no Complexo do Alemão. Colhemos assinatura para a petição na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO — UFRJ), na Urca. Mas o lançamento tinha que ser no Parque de Madureira”, pontua Valnei Succo, um dos idealizadores e garoto-propaganda da campanha realizada pelos alunos da Escola Popular de Comunicação Crítica (ESPOCC), do Observatório de Favelas. Relembrando o processo de escolha do Parque, Succo ainda explica que o projeto foi todo realizado de forma colaborativa e algumas pessoas discordaram do local. “Por fim, todo mundo concordou que Madureira é o centro da zona norte, região de onde a maioria dos alunos são. Além disso, é lá que que circulam os jovens que são diretamente afetados pelo alto índice de violência letal do Rio. A gente tinha que chegar neles”.

Lançamento da campanha #JMV no Parque de Madureira

A necessidade de falar com os principais atingidos também motivou Bruno Ricco. Ele criou um evento no facebook que mobilizou mais de mil pessoas para o ato “Contra o Genocídio da Juventude Negra” pelas ruas de Madureira — começando no Viaduto Negrão de Lima e seguindo até o Parque de Madureira — em protesto pelo assassinato, pela Polícia Militar, de cinco jovens negros em Costa Barros. Na data, os meninos passaram o dia no Parque de Madureira comemorando o primeiro salário de um deles. O carro em que estavam foi atingido por 111 tiros. “Quando eu criei o evento aconteceram alguns debates a respeito do local do ato. Muita gente torceu o nariz pra Madureira, disseram que seria um ato inexpressivo, que a causa pedia coisas maiores, com mais visibilidade. Acreditavam que isso só seria possível no Centro ou na zona sul, pois estes são os lugares que a cidade está sempre de olho. E eu queria exatamente o oposto! Eu queria a cidade olhando para onde morre mais gente. E Madureira foi prioridade por causa disso. Fizemos um ato do povo, para o povo, e isso sempre vai causar certa estranheza. As pessoas não estão acostumadas. E, no final, tivemos um ato bem expressivo”. Bruno ainda explica como o Parque de Madureira potencializou a força, já existente, no bairro. “Hoje estou com 30 anos de idade e sempre fui morador de Madureira. Vi de perto a repercussão positiva que o ato teve entre os moradores do bairro. Madureira sempre foi um lugar de luta, mas isso se perdeu com o tempo, e acredito que aos poucos volte. Madureira já é um centro, principalmente cultural, e depois do Parque aumentou bastante. Mas, só lembrando, o Parque não é um favor. O direito à cultura e ao lazer está previsto na Constituição, e a zona norte sempre foi bastante negligenciada neste sentido”.

Ato “Contra o Genocídio da Juventude Negra” ocupou as ruas de Madureira

Uma volta no Parque

Inaugurado em 2012, o Parque de Madureira possui mais de 90 mil metros quadrados. Ele é equipado com quadras poliesportivas de futebol, basquete de rua e tênis de mesa, ciclovia, pista de skate — a maior do país — uma Arena Carioca, Praça do Samba, Praça do Conhecimento, Praia Artificial e a Academia Carioca. O projeto ainda prevê obras de expansão até a Avenida Brasil, cortando oito bairros. O local ganhará uma pista de esqui artificial, muros de escalada e pista half pipe para skatistas. Para além dos números oficiais, a estrutura realmente impressiona,, como destaca o diretor do Observatório de Favelas, Eduardo Alves. “Criar desejo para as pessoas de toda a cidade partirem para Madureira, não apenas para o Centro e Zona Sul, muito me emociona. Quero uma cidade assim, com condições, equipamentos, encontros que criem desejo de chegar em todos os territórios da cidade; quero muito mais disso, muito mais”

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