O banheiro químico tem papel higiênico e álcool gel!

Priscila Kerche
Jul 21, 2017 · 8 min read

Eu estava curtindo o meu primeiro festival de música na gringa. E a surpresa que eu tive quando precisei usar o banheiro químico do lugar foi essa: tinha papel higiênico e álcool gel. Eu já tava altinha por causa das cervejas deliciosas que eu andei bebendo e não só reparei minha dignidade inabalada nessa hora, como me senti ainda mais amada no Solid Sound, um festival de artes e música que dura três dias e é feito pela banda Wilco em North Adams, nos Estados Unidos (se pronuncia Édams, não Êidams - me corrigiu o funcionário da rodoviária em Albany, capital do estado de Nova York de onde parte apenas um ônibus por dia com direção à cidade no estado vizinho do Massachussets).

O Solid Sound não é qualquer festival. Foi o que eu percebi e o que os americanos que estavam lá comentaram. A comida vendida é feita na hora e o clima é família. Crianças, pra quem é voltada uma programação especial, e idosos me pareceram presentes na mesma proporção que os adultos. Depois parei pra refletir que, por outro lado, não encontrei tantos adolescentes assim. Mas um que estava com a mãe era uma figura. O garoto de quinze anos faz dança contemporânea e curte rock anos 70/80, e a mãe fez um comentário sobre o cheiro bom de maconha que a gente sentiu enquanto conversava. Eles estavam na expectativa para ver o Peter Wolfe, que aos 70 anos faz um show superenérgico, e disseram que não tinham tempo para artistas como o Kurt Vile (ex-War on Drugs), que passou o show todo na mesma pose, parado em pé de frente para o pedestal. Eles acharam a música muito depressiva; eu achei bem bonita.

A cidadezinha de North Adams tem 13 mil habitantes e é sede de um puta museu de arte contemporânea, o MASS MoCA, um dos maiores do país. É ali, tanto na parte interna do prédio que já foi uma fábrica, em meio às exposições de arte, quanto externa, onde ficam dois palcos e um gramado acessível por pequenas pontes sobre o rio Hoosic, que rola o festival. É como se toda a cidade se mobilizasse por conta do evento, então a gente encontra a mensagem de bem-vindo de volta assinada Wilco/Solid Sound no letreiro do cinema do centro e a atendente do café fica feliz com a quantidade de gente que vem de fora, apesar de nunca ter ido ao festival.

Mohawk Theatre

Ser fã do Wilco é QUASE uma condição pra participar do Solid Sound. QUASE porque essa teoria foi abalada por um senhor com quem eu conversei, que estava ali pra ver pela primeira vez um show do Television, de quem ele é fã há mais de trinta anos. Decidimos que por motivos diferentes o festival seria especial para nós dois.

A Wilco é a headliner dos dois primeiros dias e o líder da banda, o Jeff Tweedy se apresenta no último dia chamando os amigos e familiares pra tocar junto com ele. O show do primeiro dia se diferencia do segundo por conta da proposta. Numa edição do festival que foi gravada pra um documentário sobre o evento, eles responderam ao pedido de covers dos fãs, tocando músicas de outros artistas durante todo o show. Nesta quinta edição do festival eles pediram para o público votar com antecedência no álbum da banda que a gente gostaria de ouvir na íntegra. Eu votaria no Sky Blue Sky, mas como Being There estava com mais votos e o segundo não era o Sky…, eu decidi somar para o álbum duplo que estava na frente ganhar. E então no primeiro dia os caras tocaram as duas versões de Outta Mind Outta Sight e outras pérolas como Red-Eyed and Blue que estão no Being There. Eles ainda decidiram tocar quase todo o Yankee Hotel Foxtrot e muito do Summerteeth.

As músicas do primeiro álbum A.M. ficaram para o dia seguinte, que também foi um show longo e lindo com o Neils Clein fazendo o sempre esperado solo de guitarra de Impossible Germany. Ao ouvir Hate it Here ao vivo eu me senti vingada dos amigos que viram o show superconcorrido do Wilco no Auditório do Ibirapuera em São Paulo no ano passado (eu vi o da Popload, em que essa música ficou de fora).

é do Wilco

Além da surra de Wilco, a banda faz uma curadoria massa de artistas de diferentes estilos, que incluiu desde gente com carreira consolidada como o próprio Peter Wolfe e Idris Ackamoor and the Pyramids, até uma galera nova e muito interessante como o Andy Shauf, a vocalista e guitarrista Jessica Dobson (que já tocou com uma porrada de gente: Beck, Conor Oberst, YYYs e The Shins, por exemplo) com o Deep Sea Diver e o Kevin Morby, que toca com uma mina foda na guitarra, a Meg Duffy, e que tá com um disco novo que eu não paro de ouvir e que lembra muito o Velvet Underground, o City Sound. (A Meg fofa avisou que o pai dela estava presente na plateia durante o show e ele é a cara dela.)

Teve espaço também pra bossa nova da dupla Max Hatt e Edda Glass e pro trio instrumental Dawn of Midi, que produz um ritmo repetitivo e dançante de forma orgânica. Os artistas que tocaram lá agradeciam diretamente o convite do Wilco. O Jeff Tweedy, the boss, fez um discurso logo no primeiro dia sobre “o bem” e lugares de respeito e gentileza como estávamos experienciando ali. No público, os fãs se organizaram pela internet pra ir com uma camiseta contra o Trump.

Fora Trump

Foram três dias lindos de sol pra compensar a tempestade que caiu no acampamento e molhou nossas barracas durante a primeira noite. Para além de não perder a dignidade no banheiro químico, fiquei feliz em não perder minha mochila. É preciso deixá-la do lado de fora para entrar nas galerias de arte do museu, e foi isso que todo mundo fez, várias vezes. E não é deixar num armário ou com algum funcionário do guarda-volumes, é deixar encostadinha na parede ao lado da porta de uma das saídas, ou nas prateleiras instaladas perto da entrada principal. A galera também deixa as cadeiras de armar no gramado durante todo o dia, mesmo que não estejam sentados. Parece que nada sumiu e essa sensação de segurança me chocou, de forma muito positiva.

O evento era superorganizado. Desde as apresentações pontuais e a ausência de filas pra comprar cerveja até o aplicativo pra celular que mandava notificações de pocket shows rolando dentro das galerias com 15 minutos de antecedência. Bem diferente de um festival patrocinado pela Skol no Brasil, lá tinha tipos de cerveja (Lager, IPA, Pilsen), com preço único. A Dark Ale chamava “Wilco Tango Foxtrot” e uma cidra à venda se chamava “We are trying to break your heart”, em referência à música I am trying to break your heart.

Uma garota que mora na cidade me contou que costuma ir até a linha do trem para assistir aos shows de longe, de graça. Ela me pediu pra não espalhar a informação e eu respondi que a onda não corria o risco de pegar porque as pessoas não fariam o esforço de ir até ali sem a garantia de participar do festival. A conversa rápida rolou dentro de um táxi que demorou uma hora para aparecer, e que quando chegou ainda tinha que finalizar essa corrida da menina. Mas a demora era esperada por conta do movimento atípico na cidade, e quem me alertou foi a dona do restaurante mexicano que ligou para o táxi para mim. Isso depois de eu verificar no aplicativo do Uber que não tinha NENHUM motorista à disposição naquela hora. Aliás, acho que eu e os amigos chilenos que eu fiz por lá rodamos com o único motorista de Uber da cidade pra chegar no acampamento, porque foi ele também quem levou os chilenos pro ponto de ônibus na volta.

Pablo y Maria (e eu)

Ali a gente estava a menos de 400km de Montreal e deve ser por isso que eu encontrei uns canadenses. De brasileiro eu encontrei um, que mora no Canadá, e suspeito de outro que usava uma camiseta do Boogarins. Como eu achei que não seria de bom tom sair correndo atrás dele depois de perdê-lo de vista, não consegui confirmar a informação. Talvez fosse fã gringo ou alguém que já tocou em algum evento com a banda — escolha a sua versão. Sei que dois músicos da banda On Fillmore, do baterista do Wilco, Glenn Kotche, também são brasileiros porque ELE me contou. É, os caras do Wilco ficam todos disponíveis, passeando pelo festival. E perguntam o que a gente tá achando de tudo. Até o Jeff, que eu tou ligada que é um pouco peculiar no trato, abriu um sorriso quando eu gritei o nome dele de dentro do carro ao avistá-lo na calçada.

Todos os projetos paralelos dos membros do Wilco — e todos na banda têm projetos paralelos — tocaram no último dia do festival. Enquanto a Autumn Defense, banda do baixista John Stirratt e do guitarrista/tecladista Pat Sansone tocava na parte externa, num auditório todo escuro, a Quindar, um projeto eletrônico do tecladista Mikael Jorgensen que usa trechos de áudio da NASA armou uma balada no meio da tarde. The Neils Clein Four é a banda de jazz do guitarrista, que também se apresentou.

No fim, não é só sobre música.

As exposições em cartaz no Mass MoCA durante o festival ficaram abertas ao público. Tinha uma retrospectiva de murais da americana Sol LeWitt, uma instalação imensa de móbiles do Nick Cave, uma viagem luminosa do James Turrel, fotos de Tanja Hollander, que visitou os amigos de facebook pelo mundo pra falar sobre essa tal amizade na rede social, as experiências de realidade aumentada da Laurie Anderson, que também é viúva do Lou Reed, e uma reprodução da Via Láctea como vista do hemisfério norte em março, feita pelo Spencer Finch. Lâmpadas suspensas dentro de um corredor no primeiro andar eram como estrelas visíveis da parte de fora do prédio durante todo o dia.

(California) Stars — (Spencer Finch — Cosmic Latte / Foto de Divulgação)

O “Every other summer” foi o documentário sobre o Solid Sound que eu assisti e que me empolgou ainda mais para ir até lá. Fica a dica para quem quiser dar uma olhada. As expectativas só se confirmaram.

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Priscila Kerche

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