O QUARTO DE JACK

(aprender a recomeçar… por Priscila Costa)

Olá! Como vai? Lá vamos nós outra vez…

Confesso que a intenção não é escrever a cada filme que eu assistir a partir de hoje… Embora algumas pessoas tenham me perguntado “Qual será o próximo?”, depois de lerem meu artigo sobre “Como Eu Era Antes de Você”.

E você já leu? Você pode fazê-lo aqui… Que tal?

https://medium.com/@priscila_costawriter/como-eu-era-antes-de-voc%C3%AA-5e7e83ef7d12#.d8656svib

A verdade é que não podia imaginar que tão em breve voltaria aqui e escreveria sobre um novo filme.

Tudo começou na noite de sexta- feira… Não havia grandes planos ou expectativas. De repente ia rolar um jantarzinho “at home” , e pensei, que tal alugarmos um filme pelo Now?

Alguns trailers assistidos e a opção foi por “O Quarto de Jack”, originalmente “Room”, filme que rendeu o Oscar 2016 — melhor atriz para Brie Larson, e que ainda foi indicado nas categorias, melhor filme, melhor direção e melhor roteiro adaptado. E não consigo entender por que não melhor ator? Atuação impecável de Jacob Tremblay (ator mirim).

Mais um filme que entra na lista dos assistidos sem leitura prévia.

“Room” é obra da autora Emma Donoghe, Irlandesa, 47 anos, que tem outros sete romances publicados, além de alguns trabalhos com Contos e Peças Teatrais.

Inspirada não em um caso específico, mas em algumas histórias chocantes e tristes da vida real, Emma queria fazer pensar sobre o caso de crianças nascidas em cativeiro e sobre a moralidade, altos e baixos da maternidade. Donoghe nos traz um tema delicado, evitando explorar o horror do cativeiro, mas nos fazendo questionar a liberdade.

Um ponto interessante é que foi a própria autora, a roteirista do filme. Como poucos, ela ganhou o presente de readaptar sua obra para as telas de cinema de todo o mundo e o fez com maestria.

Fui envolvida de uma tal forma , simplesmente impossível segurar as lágrimas ao final… Filme acabando, letrinhas subindo e a Priscila chorando sem parar, com aquela carinha inchada e os olhos vermelhos… sem palavras para expressar.

Daí veio… ah preciso escrever sobre isso.

O filme nos conta a história de mãe e filho que vivem em cárcere privado há muitos anos. A narração ganha um toque especial por ser feita por Jack, um corajoso e doce menino, que conhecerá o mundo aos cinco anos de idade. O mundo que antes ele imaginava ser apenas figuras com cor e movimento na tela de sua tv.

Joy, a personagem de Brie Larson, é uma garota de 24 anos, tida como desaparecida desde os 17 quando retornava da escola para a casa. Jack, nascido em cativeiro, é fruto de uns dos inúmeros abusos cometidos pelo sequestrador “Velho Nick”.

E embora, Jack seja filho de seu sequestrador, Joy encontra no garotinho, forças e esperança para lutar. Mãe dedicada e protetora, ela tem como objetivo, proteger Jack e tornar cada dia especial na maneira do possível. A dedicada mãe desenvolve atividades, brincadeiras e momentos para que o filho possa viver “normalmente”.

Aos 5 anos de idade, Jack é um menino inteligente, amoroso e ativo. Preservada sua inocência , ele imagina que tudo acontece por mágica. Para o pequeno, todo o mundo resume-se em seu quarto de 10m2 e todo o resto é fantasia.

Joy, mesmo em meio ao caos, soube como ensinar ao filho, o amor, a gratidão, o respeito, a educação e como é possível confiar em alguém. Jack tem curiosidade sobre o “velho Nick”, mas não faz muitos questionamentos. Ele ama sua mãe incondicionalmente e confia em suas palavras e escolhas. A ligação entre eles é muito forte e um é realmente pelo outro.

(ok, aviso que a partir daqui rolam SPOILERS, então se ainda não assistiu ao filme e não quer nenhuma surpresa… volte aqui depois para falarmos… espero mesmo a sua opinião…)

Notando a inteligência e curiosidade do filho, Joy resolve contar a verdade sobre o mundo e juntos eles executam um plano de fuga. Já temos uma hora de filme, quando mãe e filho estão livres do cativeiro e rumo a uma vida nova.

É nesse momento que o drama realmente se instala:

Como é voltar ao mundo sete anos depois e readaptar-se? (no caso de Joy)

Como é conhecer o mundo e começar a interagir com toda a verdade que antes eram apenas cenas de tv? (no caso de Jack)

Como é sentir-se um peso na vida de seus familiares por ter sido sequestrada e ter gerado desespero, dor, tristeza e agora ao voltar, sentir que vai desestabilizar o rumo que já haviam tomado?

Como é sentir que a vida de suas melhores amigas seguiram em frente como deveria ser e você teve sua vida interrompida e destruída por sete longos anos? Como será daqui para frente?

Como enfrentar a grandiosidade do mundo, as perguntas e as acusações de quem se acha no direito de julgar suas escolhas e decisões sem ter vivido na pele o que te afligiu?

Como é ter que tentar manter a força, calma e equilíbrio quando se está em pedaços por dentro?

Como é estar fisicamente livre, porém psicologicamente encarcerado?

Como seguir em frente?

Aqui a emoção aflora para mim… Como seguir em frente?

Como esquecer certas marcas?

Como resgatar o seu eu?

Como reaprender a sorrir?

Jack e Joy vão vivendo o dia-a-dia, ganhando seus espaços, desbravando o cotidiano, reaprendendo a felicidade, descobrindo o que gostam e o que lhes faz sorrir.

Não importa o que aconteça, não precisam correr contra o tempo. Eles podem ir devagar, passo a passo e juntos. Quando um fraqueja, o outro está ali para não deixar a corda cair.

O mundo pode ser cruel e difícil, a vida nem sempre é simples e comum. Vivemos altos e baixos todo o tempo e por vezes nos deparamos com situações que tiram nossa estrutura e desmoronam o chão bem embaixo de nossos pés. Nem sempre será pelo acaso da vida, por vezes, nossas escolhas erradas nos arremessam fundo no poço.

Não importa quão dura a vida possa ser.

Não importa o quanto a vida vai jogar com você.

Acreditar nos faz seguir.

Contudo, por algumas vezes, Jack diz sentir falta do quarto.

Aquela foi a sua vida por cinco anos. Ali estão todas as suas memórias, seus aprendizados e recordações.

E é aqui que o pequeno e frágil garotinho nos ensina uma lição ainda maior.

Não é possível seguir em frente sem um ponto final.

Não dá para seguir e contar uma nova história, se ainda estamos presos nas vírgulas e reticências de uma história antiga. Uma história mal acabada, um assunto mal resolvido nos mantém reféns, presos pelas amarras que insistem em nos puxar para trás quando queremos dar um passo à frente.

Não encerrar uma história, não nos permite começar outra de verdade.

É preciso coragem e determinação para que haja uma desruptura, somente assim podemos nos libertar.

Aqui a emoção chega ao ápice e já não foi possível segurar as lágrimas.

(gente super SPOILER ,ok?) Os dias passam, e Jack sente… está na hora de seguirem em frente. Ele então pede para voltar ao quarto, uma úlima visita é necessária.

Já no quarto com a mãe, ele nota como o seu mundo mudou.

Ao encorajar-se em confrontar seu passado, Jack nota como aquilo pode sim ficar para trás. Tudo o que vem pela frente é grandioso e já não vale à pena ficar preso à algo tão pequeno. Sim, ao entrar no quarto que antes parecia tão “grande”, Jack sente qual o verdadeiro tamanho daquele espaço, e é capaz de comparar a grandiosidade do mundo ao seu redor.

Ao ver que o quarto está diferente, sem muitas das coisas que foram levadas como provas pela polícia, Jack entende que sua história está dentro de si. Fica o que precisa ficar, todo o restante ele pode deixar ir.

Jack então, despede-se de sua antiga história e de seu antigo mundo…

“Tchau pia, tchau armário, tchau mesa, tchau cadeiras, tchau planta, tchau claraboia… Mamãe, diga adeus ao quarto.”

Ao virarem as costas e seguirem, irão traçar sua nova história.

Que seja essa uma lição para a vida.

Nem tudo segue conosco, nem todas as histórias são para sempre, nem tudo que faz sentido hoje, fará sentido amanhã. Você saberá o momento de deixar ir. E quando o momento chegar, tome coragem de despedir-se e seguir em frente. Saiba quando colocar pontos finais, somente assim poderá surgir uma nova história.

A vida segue e precisamos seguir com ela.

Há coisas que devem ser deixadas para trás….

texto por Priscila Costa, tradutora, amante das letras e apaixonada

pela vida, cuidando de cada pequeno detalhe que possa inspirar e

tornar o caminhar mais cheio de magia e esperança.

Vivendo e inspirando a felicidade.

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