Fora de época | Dentro de mim

Hoje não será um dia fácil pra ele. Tem o trem, que às vezes dá ruim — mora perto da estação terminal. E atravessa a cidade até o último ponto do Engenho Novo. Entra no trabalho 9h. Acorda 5h50. Não precisa mais de despertador; a vida o ensinou a estar sempre alerta. 
Mais dois ônibus e uma longa caminhada. Chega no trabalho, faz o que ama. Cuida. Quer que cada detalhe saia exatamente como pensou. Canta. Apresenta sua trajetória por meio dos raps que conhece, se identifica e cultua. “Pra não dizer que eu não falei do ódio”? Mas eu só vejo candura. Não acredita em milagres.
Olha pro céu. Pede que não chova, porque aí não vai dar tempo de encontrar os parceiros pra pelada da semana. Só chega em casa no dia seguinte quase. Tá todo mundo esperando no campo. Cansado? Sem desculpa, né, mano? A vida não ta fácil pra ngm. Sustenta a casa. Nasceu de pai ausente. Não tem a quem recorrer. A ele, não foi dado o privilégio de reclamar.
Mesmo assim, sustenta o título (já que estamos em ano Olímpico) de sorriso mais bonito do Rio — aos meus olhos, o mais bonito desse Brasil.

(Ainda é Carnaval no meu coração)

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