"O que é o amor? Onde vai dar?"

Passei boa parte da vida adulta num esforço de, como direi, blindar a forma de lidar com minhas relações afetivas. Cada história tinha que ter vivências únicas. Apelidos únicos, músicas únicas, poemas únicos. Se eu usava uma passagem do Fernando Pessoa com alguém, ela em seguida seria sumariamente excluída dos meus compêndios; e eu não poderia ousar utilizá-la novamente. Nunca o outro soube disso, mas por dentro eu me considerava desonesta quando usava as mesmas palavras pra significar uma relação outra.

Nessa tarefa hercúlea — e sempre acompanhada de muita autocrítica bem virginianERROR — fui buscando espécies de derivações do sentimento que pudessem, de algum modo, funcionar também como referenciais. Afinal, de “amor” só chamei uma vez (e realmente se tratava de um sentimento avassalador: “a melhor coisa que eu tive, mas o pior também em minha vida”. Cabe aí um ensaio sobre o amor, talvez). Termos como “Bonito”, “Lindo”, “Nêgo” foram usados, sem muita exclusividade, mas com muito afeto. No meu “ranking”, não é qualquer pessoa que recebe essas “alcunhas”.

O que, na verdade, eu ainda não tinha me dado conta é que as relações, não só as afetivas mas também as de trabalho e amigos (ora, quem disse que não há afeto aí?) são mesmo ordinárias — no sentido de serem comuns, uma vez que fazem parte do cotidiano; não acontecem coisas fora do normal todos os dias. Não acontece uma coisa especificamente extraordinária em cada relação experimentada; ela contém regularidades.

Quanto esforço inútil, estéril, se amar é tão clichê — se as melhores coisas da vida são muito clichês.