Nunca serei Ofélia..
Ardia em mim. Eu sempre pude sentir, a partir do momento que não me senti ligada àqueles que me deram vida, ardia a mim a vontade de ter e construir os meus. Queria recomeçar à partir do meu ventre. Cruzar com o olhar dos meus pupilos e perceber neles o brilho dos meus olhos que agora, ou sempre? se encontram esquecidos. Quando eu era criança, ah como meus olhos brilhavam, um castanho que não chama atenção nessa sociedade dicotômica entre azuis e verdes, mas meu castanho encantavam àqueles que saboreavam a estranheza. Eu ansiava também pela minha mulher, homem não, desde cedo sentia minha inclinação ao feminino, a maciez da pele; a mulher representa a Terra, a vida, mulher nutre e dá luz, e tudo que eu sempre desejei era pertencer, nada mais do que necessário o amor de uma mulher para me parir o amor. Mas agora, cada vez mais próxima da possibilidade de dar um sopro de vida aos meus sonhos, me questiono o porque que sempre quis construir essa entidade, essa família. Seria minha falta de raízes? Seria a ditadura que quero impor aos meus? Terei êxito? Todavia, mais que tudo isso a me inquietar, o que inquieta é a inveja prematura que tenho de meus futuros filhos. Olho pra trás, lembro-me dos meus dias, analiso este dia que vivo hoje e estou a escrever, e dos poucos que me veem a tona, que vida medíocre. Meu deus! Que existência vulgar, sem jeito, pautada na ingênua arrogância de viver um caminho pródigo. Eu invejo meus filhos, invejo o nascimento que eles terão, a oportunidade de começar. Senhor, como eu queria recomeçar, como queria ser menos EU e mais TUDO! Queria ser entregue ao mundo, mas a gente já nasce assim, queria ter nascido com defeito, assim como Virginia, assim como Clarice, até esse texto soa uma cópia chula de suas profundezas. Nunca me afogarei em mim, morrerei como uma criança que se afoga em uma piscina rasa, e nunca como uma alma tão pesada até que alcançasse o fundo de um rio.