Mentira

A cena é esta: eu de pijamas comendo brigadeiro de panela na frente do notebook em um sábado à noite. Sim, todas as minhas amigas estão namorando e eu não tenho a atitude de sair sozinha. Mentira. Eu tinha um aniversário de um conhecido pra ir, mas fiquei com preguiça de comprar o presente e resolvi aproveitar meu ócio noturno. Mentira de novo. Estou com uma baita espinha no nariz e ficaria ridícula nas fotos. Dessa vez é verdade, eu juro.

Quando estou me deleitando com o gosto saboroso de doçura nos dentes e pensando em quantas alfaces terei que comer para compensar a bomba calórica, vejo um quadradinho surgir na tela do notebook, é Babi perguntando como eu estou. A Babi foi minha melhor amiga na escola, dessas de estudar para a prova juntas, ligar à noite e fazer lados para os gatinhos. Você leu certo, o verbo está no passado: foi. A Babi não gosta que eu escreva sobre ela em minhas crônicas. Mas eu escrevo mesmo assim, toma Babi. Ha-ha. Pena que a Babi não acha engraçado.

A briga foi ridícula dessas que a gente começa no Facebook e leva para a vida real sem explicação. Não sei você, mas eu não sou eu mesma online. Sou mais bonita, inteligente e engraçada online. E mais chata, claro. Todo mundo tem um lado muito chato online. Na verdade penso em deletar a minha conta do Facebook, a rede já está ultrapassada, no momento curto mais o Instagram… Onde eu estava? Ah, sim! A briga. Babi perguntou como eu estava e nem esperou a minha resposta para dizer que tinha lido a última crônica do meu blog e não gostou nada. Disse que a suposta personagem do texto era ela e não gostou nadica de nada. Eu expliquei que não tinha cabimento uma acusação dessas sem ao menos perguntar e que não era ela. Tanto que a tal personagem tinha nome, roupas e linguajar diferentes do dela. Ela persistiu na acusação e pediu para eu deletar a crônica, dar um c’est fini, adeus para a minha obra-prima.

A crônica, diga-se de passagem, nem é tão boa assim, mas pedir para eu me desfazer daquele texto que foi gerado com tanto pesar em uma longa noite sem sono? Aquilo era demais pra mim, não me controlei e disse não. O primeiro “não” que eu disse para a Babi. Ela não estava acostumada a ouvir tal palavra, ainda mais vinda de mim, que sempre concordei com ela nos planos mirabolantes, nos temas de estudo e nas saídas à noite. O “não” foi como um soco bem no meio da boca do estômago. Ela não se conteve e disse que iria me processar e prometeu nunca mais olhar na minha cara.

E cumpriu. Pensei 358 vezes em deletar a crônica do blog. Afinal, não são tantas pessoas assim que leem minhas crônicas e eu não iria morrer por deixar um texto guardado na gaveta. Ou melhor, não iria morrer em deixar o texto somente salvo na pasta do desktop. Pensei durante um mês inteiro, no ônibus, no chuveiro, na faculdade, no trabalho e até enquanto almoçava com amigos. Foi aí que a ficha caiu e percebi que Babi não era mais minha amiga. Não pela briga, mas a vida se encarregou de nos separar, a briga só foi a assinatura de contrato.

Faz nove meses que não falo com a Babi.

A personagem da crônica era a Babi.

@priscilandreza