Quando o mar chama

Quando somos pequenos, antes de sermos ensinados à nadar e somos levados à praia, ficamos o tempo todo sob a superproteção dos constantes olhares de preocupação de nossos pais. E precisamos nos contentar a ficar apenas na parte mais rasa onde o mar encontra a areia, e nossas alternativas se limitam a procurar conchas, molhar os pés na beira da água e construir castelinhos de areia.

O nosso primeiro castelo geralmente é feito com alguns baldes e pazinhas. E tudo o que conseguimos são algumas torres mal feitas. Ainda assim, nosso humilde castelinho nos enche de orgulho, até que a primeira onda o derrube, nos fazendo chorar.

Com o tempo, e com um pouco mais de habilidade e experiência, vamos aprendendo que não devemos construir nossos castelinhos tão próximos ao mar. E então começamos a construir castelos bonitos de verdade, um pouco mais sólidos. O que deixa as outras crianças ao nosso redor com olhares cheios de admiração e isso nos deixa satisfeitos por um tempo. Porém, logo descobrimos que castelinhos construídos com areia e água dificilmente duram por muito tempo…

Uma hora você se cansa da areia, se cansa de ouvir que precisa ter cuidado, e se cansa principalmente de não poder ir além das primeiras ondas que só molham os pés. Sua curiosidade te instiga e seu instinto e te faz ouvir o chamado. Os mais belos castelos de areia já não bastam. Você precisa entrar no mar e fazer parte dele.

Todos os castelos de areia — bem construídos ou não — logo se desmancham. Geralmente destruídos por causas naturais, por pessoas descuidadas, desatentas ou mesmo por alguém mal intencionado. Mas não o mar, ele sempre esteve ali e sempre estará. Dias mais calmo, dias mais bravo, mas ele sempre está ali. Você tira a areia que ficou grudada em sua pele e se levanta, dando hesitantes passos em direção ao fundo, e as primeiras ondas que se quebram quase sempre te derrubam. Você cai, e o pouco de sal que entra em seus olhos, nariz e garganta os fazem arder. Mas a sensação da água salgada batendo em seu corpo é boa mesmo assim, então logo depois você ri de si mesmo e continua. Precisa continuar e ir mais fundo. Você precisa sentir o mar por completo, ondas que alcançam apenas o joelho já não são suficientes.

Quando você finalmente chega ao fundo, percebe que ali as ondas são maiores, mas não quebram. E quando elas vem, é preciso uma decisão, pular a onda, ou mergulhar através dela. Ao pular a onda, é possível continuar respirando e enxergando com clareza, mas somente estando totalmente submerso é possível sentir-se completamente livre. Nesse instante, você percebe se nasceu ou não para construir castelinhos de areia. Eu nasci para o mar. Uma vez lá dentro, não há o que me faça sair.

Nem todos nascem peixes, a maioria prefere apenas observar a beleza e admirar a imensidão do oceano de longe. Eu, porém, preciso sentir. Me assusta mais o fato de ficar na areia o dia inteiro, do que de enfrentar as mais fortes ondas.

Eu sempre vou querer o mar. Pois, na prática, descobri que lá existe mais vida.

“I don’t need no one to follow, feathers full
Get up early just to charm unwaking souls
When the sea called me
When the sea called me home…”