Peço que leia só se realmente gostar de futebol, e tiver tempo e mentalidade para refletir. É que lendo algumas colocações do texto do link abaixo, percebi que gostaria de propor uma contrapartida e fazer algumas ponderações sobre o artigo escrito pela Gabrieli Jacobs. Normalmente, eu não iria me expor para falar sobre futebol. Mas como sei que grande parte desse texto foi baseada em um episódio, que envolve alguém próximo a mim. Preciso me manifestar aqui e dizer que, sinceramente, acredito que os motivos, pelos quais há tantos conflitos envolvendo o futebol feminino da região dos vales, são um pouco diferentes dos apresentados no texto abaixo.

Há algum tempo não tenho participado de competições de futebol, na verdade nunca gostei de participar de competições nessa modalidade, é que desde muito cedo reconheci que, em muitos lugares, ela era vivenciada em uma atmosfera totalmente pesada, poluída com sentimentos de rivalidade e ofensas, que nada tem a ver com o espírito esportivo. Contudo, muito tenho acompanhado sobre futebol, seja através de trabalhos e arbitragens, seja para torcer e incentivar o futebol da região, o que me possibilitou bons pontos de vistas sobre o desenvolvimento social desta modalidade esportiva. Dentro disso, o que mais tem me indignado a respeito do futebol feminino e o comportamento social das pessoas como um todo, são essas verdades absolutas que cercam o esporte, como traz o texto em questão. Em que as pessoas perdem a noção do tamanho e do peso das palavras que usam nas suas afirmações. Concordo com muito do que traz a essência do texto, mas o texto em si, tem exatamente a conotação daquilo que crítica, ou seja, está carregado de indiretas, ironias e no fim acaba se tornando mais uma tentativa de dizer: meu time preza isso e não aquilo ou aquele outro. De qualquer modo, bom que alguém tenha tido a iniciativa, porque o silêncio dos bons, também me preocupa, já que tá cheio de gente falando coisas sem sentido.

Assim, focando exclusivamente no futebol. Talvez uma via de reflexão sobre a baixa valorização e reconhecimento do futebol feminino e as constantes discussões em redes sociais e dentro dos times da região, seja não questionar o futebol feminino em si, mas a índole e o caráter de algumas de suas atletas e/ou coordenadoras de times, porque toda vez que me falam ou escrevem sobre futebol vejo hipocrisia à beça. Acredito que o que inibi o crescimento do futebol feminino e não contribui na conquista de espaço e apoio para as mulheres, não são os “conflitos”, esses geralmente estão presentes em toda sociedade, e são partes da história da evolução humana. Mas se formos falarmos deles, precisamos lembrar que conflitos são frutos de algo mais enraizado, como: preconceitos, indiferença, e mesmo aquela falsa sensação de superioridade, como mencionada no texto. E com o futebol feminino da região não é diferente. Assim, o que estraga mesmo o futebol feminino, e digo isso com base em muita observação dos mais diversos times e pessoas, não são os conflitos em si, são as conspirações que ocorrem antes dos jogos e campeonatos, as mensagens cheias de desaforos, as piadas maldosas, as brincadeiras de mau gosto, que geralmente ocorrem de forma dissimuladas, como se não quisessem nada, mas tem um intuito apenas: testar o outro. Além disso, falsidade rola solta, você acha que conhece alguém que joga no seu time, mas não conhece. O certo nessas horas é sair do círculo e colher depoimentos que são ditos a respeito de determinada pessoa por pessoas de fora, se nem no bairro em que mora ou na própria a família a pessoa não é bem quista, desconfie. Porque pessoas assim tem uma habilidade incrível para distorcer fatos. Assim, o que realmente deve preocupar a respeito do futebol feminino, são sim as verdades absolutas, os julgamentos com base em um ângulo de visão apenas. E estes, atualmente, começam bem antes de chegar na porta de entrada do ginásio.

Não sou atleta do Santa Cruz Futsal Feminino, nem tão pouco de qualquer outro time de futebol da região, pratico um esporte individual, embora tenha um bom desempenho em qualquer outro jogo ou esporte. Mas como disse: eu prefiro um esporte individual, que se torna coletivo diante da humildade de seus praticantes, do que um esporte coletivo que seja individual, cada um por si, em razão de egos inflados e falta de sensibilidade. Quando esses egos inflados disfarçados de amigos se aproximam, dentro ou fora das quadras, é ai sim, que começa o conflito, e o conflito vendo por esse lado se torna sadio, mesmo havendo alternativas melhores. Não estou defendendo as brigas, as odeio de todo coração e as evito sempre. Mas tem briga que às vezes não é briga, é um grito de basta. Os mais intelectuais chamariam de desobediência civil, já ouviram falar? Quando a única forma de fazer as agressões sobre nós pararem é responder com atitudes que geralmente são condenadas pelos códigos sociais, as vezes não dá pra fazer isso de forma pacifica e o resultado é a violência física. E eu acho que quando chegam nesse ponto, às coisas podem ser explicadas por dois motivos: ou é muita infantilidade ou um desejo, meio torto, de dizer que já não aceitamos mais as ofensas e julgamentos sobre nós, e nesse sentido “conhecendo” todos que participaram de um modo ou outro do episódio, eu poderia dizer que, com um pouco de bom senso, é bem fácil ver o que originou isso, e quem.

Mas voltando ao futebol, o futebol feminino tem realmente crescido muito nos últimos anos em Santa Cruz do Sul e região, cada vez mais surgem times amadores, com meninas habilidosas e apaixonadas pelo esporte que acabam apaixonando, com suas habilidades, a todos que querem o reconhecimento da modalidade. A parte técnica do futebol feminino aqui, também tem passado por grandes avanços. Embora com pouco tempo de fundação times, como o próprio Santa Cruz Futsal Feminino, já conseguiram “exportar” e possibilitar a ida de algumas atletas para quadras e campos de futebol fora da região, estado ou pais, a maioria dessas garotas tem seus próprios méritos nessa conquista de outros cenários futebolísticos, mas é evidente que o trabalho que tem sido feito na cidade pelo Santa Cruz, muito contribuiu e facilitou esse intercâmbio esportivo. Se o apoio ao futebol feminino ainda é válido? Óbvio, ele é, e isso é inquestionável. Até mesmo, porque o poder de transformação e de superação das adversidades vindas do esporte é muito grande. Quem investe em esporte, investe em saúde, em educação, no futuro. Mas todo esporte perde seu valor quando super egos entram no jogo. E é esse o problema do futebol feminino da região dos vales. Não todos, mas a grande maioria dos times tem uma ou outra jogadora que acaba transmitindo uma imagem negativa de todo o resto do time. Outro dia circulou na RBS TV uma reportagem a respeito de um time local, este fazia questão de ressaltar na reportagem que era o único time de futsal feminino da região, e eu me perguntei nossa e os outros no mínimo seis times que vejo participar sempre dos torneios, o que são?

Então, sim, Gabrieli Jacobs tem razão, as pessoas precisam de ajuda. Porque o mal que atinge o futebol, é o mal que tem atingido a sociedade, o individualismo mascarado, a falta de critério, de atitude para defender uma causa nobre, como o esporte, a cultura ou a educação. Falta gente para propor e fazer ações para além das quatro linhas, e gente que reconheça, com respeito, o que o outro faz. Falta gente que não fale de cerveja, quando for falar de futebol ou esporte. Que leve o esporte a sério, mesmo quando tudo for uma brincadeira. Sonhei com uma sociedade melhor, em que não houvesse brigas além daquelas de travesseiro, muito menos em quadras de futsal feminino. A autora do texto destacado abaixo também deve ter sonhado sonhos parecidos, vi isso em muitas das suas publicações, mas pra tornar nossos sonhos pro mundo reais, não podemos ser cegos ao voltar a realidade. Eu não estava presente, mas reconheci o ambiente e o cenário descritos no texto, porque o episódio ocorrido nas quadras de futebol, no último domingo, chegou até mim através de vídeos e depoimentos nas redes sociais. E me entristeceu muito, entristeceu a todos que admiram e cultivam o esporte. Mas enquanto houver pessoas de pouco caráter no esporte isso vai acontecer, espero que não mais envolvendo alguém que gosto tanto. Espero não ter agredido a autora do texto em palavras, às vezes, verdades parecem agressões. Mas eu prefiro verdades que ironias, a probabilidade de acabar em conflito são menores, por isso de citar o nome do autor do texto aqui.

Agora falando exclusivamente em defesa do Santa Cruz Futsal Feminino, a respeito do acontecimento do final de semana. Que triste fazer uma política totalmente a favor do reconhecimento do esporte, e ter que vivenciar “conflitos” assim, se você acha que dá um correria organizar seu final de semana pra participar de um torneio, imagina pra quem tem dedicado diversas horas na semana inteira, o ano todo pra organizar isso pra um time inteiro. Quem já jogou em algum momento pelo Santa Cruz sabe da acolhida estilo família que ocorre. A casa sempre aberta, acesso livre a alimentação, cama, hospedagem, auxílio no transporte antes e após os treinos, independente do horário, envolver garotas em situação de vulnerabilidade social com as demais garotas do time, prestando todo auxilio e sem discriminação, diversas campanhas realizadas beneficiando instituições e pessoas que realmente precisam, dois dirigentes que fazem esforços absurdos, se preocupam, cuidam, acabam tendo gastos com transportes, gasolina, em alimentação para pessoas que não são da sua “família”, que não moram na mesma casa e com as quais realmente nem possuem laços de sangue. E pra mim, sinceramente, esse é o melhor conceito de família. Por que em épocas de crises econômicas e afetivas, a gente sabe que quase ninguém é assim, disposto a abrir oportunidades ao outro. Mas como sabemos alguns não entendem essa definição, e é ai que tudo se complica, que tudo se perde, no esquecimento, nos conflitos, na ideia de quem acha que tudo é apenas um jogo ou hobby de domingo, prezando mais a competitividade do que os sentimentos afetivos e amizades que podem ser construídas e permanecer por toda a vida.

Ah, e falar em competitividade desejo muito crescimento e evolução ao futebol feminino da região, evolução em técnicas, táticas e, principalmente, em atitudes das participantes, que ao final de cada jogo a frase seja “parabéns por sua participação”, porque se falar em vitória vai ter gente querendo esfregar troféu na cara do outro. E não queremos isso. Porque sabemos como acaba. Com razão? não? Depende do ponto de vista de cada um, mas suponho que aquele que se propor a ver por mais ângulos irá achar uma resposta melhor. Ainda tô pagando pra ver um futebol feminino integrado em Santa Cruz do Sul, em que equipes compitam juntas e não disputem juntas, this is the difference.

Priscila Silva

Atleta, por 3 vezes medalhista brasileira e humilde o bastante para nunca ter esfregado isso na cara de ninguém.

Futura crítica da revista Laws of sport.

https://medium.com/@GabrieliJacobs/n%C3%A3o-apoie-o-futsal-feminino-896e4c8ceaec#.3smr41rgp

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